sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Presentes de Natal... Aprendendo a viver e contar os dias



Trazido a um mundo onde não há almoço gratuito e treinado para usar presentes para comércio, estou buscando gastar a minha vida entendendo a vontade de Deus, recebendo e dando esses presentes, com a fé de estar ofertando ao Salvador a minha devoção e gratidão pela salvação.

Nessa época, mais importante do que discutir se a data é correta, é importante aproveitar a oportunidade e introduzir o verdadeiro sentido do Natal: A história do Deus que se fez homem para nos salvar.  Penso ser interessante comemorar o Natal próximo ao Ano Novo, pois se soma a reflexão natural que se faz ao final de um ano.

Sei que é apenas mais um pôr do sol e nascer do sol, mas a virada do dia 31 de dezembro para o dia 1 de janeiro possui um impacto psicológico muito grande. Vale a pena fazer uma “auditoria na alma”, “fechar para balanço”, ofertar ao Salvador o melhor. Buscar Novos horizontes. Uma sugestão é fazer a mesma oração que Moisés: "Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio." (Sl 90.12).
Com isso em mente, reli um texto do Pr. Ariovaldo Ramos que quero compartilhar, como Segue.

Há alguns, ao participar do aniversário de um bom amigo, ponderei sobre a sábia e enigmática frase de Moisés: "Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio." (Sl 90.12). Parece que esse conselho, do grande libertador, sempre nos vem à mente nessas ocasiões. Porém, apesar da beleza da fala do homem de Deus, permanece o desafio do tipo "decifra-me ou o devorarei": o que significa contar os dias da maneira proposta?

Não sei se alguém tem a resposta, mas eu gostaria de propor uma.

Jesus Cristo, certa feita, disse: - "E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos." (Lc 16.9). Na ocasião, ele estava respondendo ao ataque de alguns fariseus, que estranhavam o fato de Jesus estar recebendo publicanos e pecadores. Por uma questão de justiça para com os fariseus é preciso que se diga que, em princípio, eles tinham razão: publicanos e pecadores não eram simples almas perdidas; eram membros do povo de Israel que traíram ao seu Deus e ao seu povo! Não tivessem os romanos privado os judeus de aplicarem a justiça, tais pessoas teriam sido apedrejadas. Para dar essa resposta, o Senhor lançou mão de quatro parábolas: a ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido e o administrador infiel.

Na primeira, fala de um pastor que abandona, no campo, 99 ovelhas e vai atrás da que se perdeu. Uma loucura! Deixar seu aprisco à deriva de ladrões e animais selváticos e, mais, quando volta, vai festejar o achado. E as demais ovelhas? Uma loucura! Com essa parábola Jesus parece confirmar que ao receber publicanos e pecadores estava, aparentemente, fazendo uma loucura, mas Ele viera para isso mesmo: cometer uma ´loucura´ pela salvação dos homens.

Na segunda parábola Jesus explica o porquê da disposição à loucura, o valor do homem: embora para os fariseus o publicano e o pecador valor nenhum tivessem, Jesus os via de modo diferente. E como a senhora que, perdendo uma dracma, cerca de R$ 0,30, desarruma tudo concedendo a moeda um valor que de fato não possuía, assim, também, para Jesus o ser humano mais pecador é tão valioso que vale a pena desarrumar tudo para achar um, como fez a mulher que perdeu a dracma.

Na terceira parábola o Senhor, num primeiro momento, concorda com os fariseus, os publicanos e os pecadores são os filhos que, como o filho pródigo, por vontade própria, se apartaram do Pai amoroso. Porém os fariseus, representados pelo irmão mais velho, não conseguiram se sintonizar com o coração do Pai vez que, confiados em seus pretensos méritos próprios acabaram por desenvolver um senso de justiça própria, que os tornou incompassivos e judiciosos.

Por fim, por meio da parábola do administrador infiel Jesus acusa os fariseus de estarem mal administrando fortuna alheia, tanto a vida quanto o conhecimento lhes foi legado e este saber deveria ter-lhes desenvolvido o senso da impossibilidade, ou seja, a consciência de que, jamais, por si mesmos, conseguiriam viver segundo tão elevado padrão e que, o melhor que poderiam fazer era, a partir do que sabiam, diminuir a distância entre os pecadores e Deus pela compreensão, pelo amor, pela bondade, pelo ensino, fazendo amigos a partir de riqueza alheia, pois tanto a vida como a revelação pertencem a Deus. "Para que, quando aquelas (a vida e a sabedoria) vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos." (Lc 16.9).

Ao recomendar aos mestres da lei que usassem a vida e o conhecimento para fazer amigos para a eternidade, o Senhor respondeu nossa pergunta: - Como viver de modo a alcançar coração sábio? E a resposta de Jesus é: - Vivendo para fazer amigos, pessoas de quem nos aproximamos para aproximá-las de Deus e, para dEle, por elas, sermos aproximados.
Por quê?

Porque como disse o psicólogo suiço Hans Burky:- "O Reino de Deus é um reino de amigos". Porque amigo é esteio nas horas difíceis: "Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão." (Pv 17.17). Porque amigo é fonte de amadurecimento: "Como o ferro com o ferro se afia, assim o homem, ao seu amigo." (Pv 27.17). Porque amigos são para sempre. Embora, na ressurreição, nem nos casaremos, nem nos daremos em casamento; sendo, porém, como os anjos no céu (Mt 22.30), teremos amigos: aqueles amigos que nos receberão nos tabernáculos eternos! (Lc 16.9).
Feliz Ano Novo!!!!
Pr. Eduardo Leandro Alves

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A HISTÓRIA NÃO PERDOA




Você sabe quem foi Rui Barbosa? É possível que sim. Agora, você sabe quem foi José Gomes Pinheiro Machado? Se você não for um exímio conhecedor da história do Brasil é possível que não saiba. Mas, para satisfazer a sua curiosidade, colocarei abaixo alguns dados da história[1] desse brasileiro e ao final explicarei o porquê fiz essa narração toda.

Logo depois da proclamação da república brasileira (1889), José Gomes Pinheiro Machado foi eleito senador, participando a seguir da constituinte (1890/1891), na cidade do Rio de Janeiro. Com a eclosão da Revolução Federalista (1893-1895) no seu estado natal (Rio Grande do Sul), em 1893, deixou a sua cadeira no Senado, para combater o movimento armado no comando da Divisão Norte, por ele organizada.

Derrotou os revolucionários comandados por Gumercindo Saraiva na Batalha de Passo Fundo (1894), fato esse que lhe valeu a patente de general. Retornou ao senado, onde permaneceu até a sua morte.

Em 1897 foi acusado de ordenar - em um sórdido acordo com Francisco Glicério e outros políticos - o atentado contra o então presidente Prudente de Morais, na entrada do Arsenal de Marinha, em que morreu o general Carlos Machado Bittencourt. A acusação lhe custou alguns dias de prisão, mas diante da falta de provas, foi libertado.

Os partidos da República Velha eram constituídos em âmbito regional, como o Partido Republicano Paulista, o Partido Republicano Rio-grandense e outros. Pinheiro Machado, com a sua ampla visão política, adiantou-se no seu tempo ao fundar um partido político nacional, o Partido Republicano Conservador – PRC.

Em 1905 tornou-se vice-presidente do senado brasileiro, onde passou a controlar a Comissão de Verificação de Poderes, cuja função era a de definir quais candidatos eleitos pelo voto poderiam tomar posse. Com este imenso poder em mãos, eliminou no nascedouro diversos mandatos parlamentares (que foram outorgados pela população) que poderiam ter contribuído para o progresso da nação.

Pinheiro Machado atingiu a sua máxima influência quando Nilo Peçanha assumiu a presidência, após a morte de Afonso Pena, em 1909. Apoiou a candidatura do marechal Hermes da Fonseca à presidência da República em oposição a Rui Barbosa, apoiado pelos estados de São Paulo e Bahia. O resultado das eleições foi de 403.800 votos para Hermes contra 222.800 para Rui. Na época, o normal era que um candidato de oposição recebesse de 20 a 30 mil votos. No mandato de Hermes, o poder de Pinheiro Machado atingiu o seu ápice, onde teve papel predominante na política de salvação, movimento que visava apaziguar as disputas entre as oligarquias regionais. Uma piada publicada pela revista "O Gato", em 1913, resumia bem o poder de Pinheiro Machado. Segundo a piada, no dia em que deixava o Palácio do Catete (então sede da República), Hermes da Fonseca teria dito a Venceslau Brás, seu sucessor na presidência da república: "Olha Venceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente".

Pretendia se candidatar à sucessão presidencial em 1914, mas articulações de seus oponentes impediram seu intento. Voltou então aos bastidores, de onde pretendia continuar manipulando à distância os jogos parlamentares e a política dos estados. Tinha imenso prestígio no Rio Grande do Sul e na região Nordeste, mas já colecionava um imenso número de desafetos noutras regiões. Em janeiro de 1915, enfrentou o clamor das ruas da Capital Federal, quando foi recebido por vaias pelos partidários de Nilo Peçanha, cuja eleição para a presidência do estado do Rio de Janeiro quase fora impedida por vontade de Pinheiro Machado. Milhares de "nilistas" pediam por sua cabeça. Meses mais tarde, ao impor o nome de Hermes da Fonseca como Senador pelo Rio Grande do Sul, quase foi linchado por uma multidão feroz que o aguardava na porta do Senado. Foi nesta ocasião que Pinheiro Machado disse uma de suas mais célebres frases, ao ordenar ao cocheiro que o apanhara na porta do Palácio do Conde dos Arcos e que lhe perguntara como deveriam sair dali: "Nem tão devagar que pareça afronta, nem tão depressa que pareça medo!". Em 1915 foi assassinado.

Por que narrei essa história? Pelo fato que a vida política brasileira é cheia de personagens como Pinheiro Machado. Influentes, articuladores segundo os seus próprios interesses, mas que na sequencia da história são esquecidos.

Agora, se eu perguntar quem foi Rui Barbosa... No mínimo a maioria dirá que foi uma pessoa de boa influencia no Brasil.

Como bem disse o Senador Pedro Simon: “O Rui Barbosa é o nosso grande patrono no Senado, mas como político foi um homem de derrotas. Perdeu duas vezes a eleição para presidente da República e não tinha influência no governo. Quem mandava e elegia presidentes era o (José Gomes) Pinheiro Machado, de quem hoje ninguém fala. O Sarney está mais para Pinheiro Machado do que para Rui Barbosa. Vai acabar esquecido pela história.” Bem... poderíamos colocar inúmeros nomes que ainda estão vivos nessa frase do Senador Pedro Simon e que serão esquecidos pela história...

Na verdade, quando nossos dias nesse mundo acabar (e um dia certamente acabarão) o que ficará é a nossa história. E a pergunta é: como ela será contada? Pode se dizer: “a história é contada pelos vencedores. Pela ótica daquele tempo Rui Barbosa perdeu. Contudo, seu pensamento ecoa pelo tempo: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

Se Rui Barbosa pudesse me ouvir (o que acredito que não pode), diria a ele: “quem vive de nulidades, de desonra e de injustiça, serão esquecidos. Sua honra, sua honestidade lhe garantiram um bom lugar na história”.

Essas pessoas que mudam de lado de acordo com as conveniências pessoais serão atropeladas pela história. No futuro a foto do Lula com o Maluf será a “cara do fisiologismo”. Apoiadores de ocasião, não trabalham para o bem coletivo, mas para o bem individual. A história não perdoará.

Pastoralmente (como teólogo, pastor, não posso deixar de dizer isso), essas mesmas verdades servem para o meio eclesiástico, especialmente para os que se utilizam de expedientes contrários aos princípios da Bíblia.

... os ímpios ... são como a moinha que o vento espalha.
Por isso os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos.
Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá.
Salmos 1.4-6


[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Gomes_Pinheiro_Machado

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SOBRE AUTENTICIDADE




Penso que não foi fácil a decisão de Davi de recusar a armadura de Saul, justamente no dia em que ia lutar contra Golias. Deve-se entender que nesse momento ainda não havia a disputa e inveja que posteriormente corroeria Saul e o levaria a uma corrida doentia de “caça” a Davi. Davi, ao que tudo indica, amava e servia o Rei. O Rei Saul era esplêndido e poderoso, e, também ao que parece, admirava e amava a Davi e estava fazendo tudo o que podia para auxilia-lo, inclusive emprestando a própria armadura. No entanto, apesar de tudo isso, Davi retirou o capacete, dispensou a armadura e despiu-se dela. Essa não deve ter sido uma decisão fácil. Se livrar de todos aqueles recursos oferecidos.

Acontece que ter ido encontrar Golias vestindo a armadura de Saul teria sido um desastre. E é aqui que se encontra uma lição do Pr. Eugene Peterson: “Sempre acaba em desastre quando se abre mão da autenticidade. Davi necessitava do que era autentico para ele”.

Fico impressionado ao imaginar essa cena com o fato que Davi foi ousado o bastante para rejeitar a sugestão de fazer a sua obra sem autenticidade (ao não querer usar a armadura de Saul); e foi modesto e ousado o suficiente para usar somente o que adquirira habilidade para usar nesses anos como pastor de ovelhas (sua funda e algumas pedras). E ele matou o gigante.

Isso é um problema. Isso é um dilema. Há pessoas que não conseguem ter autenticidade. Usam uma voz que não é sua. Ao orar, imitam outros; ao pregar imitam outros; repetem frases de efeito e vivem de “chavões”. Não possuem padrões éticos fortes o suficiente para tomar decisões, com isso seus comportamentos são dúbios, ou como popularmente se diz: “dançam conforme a música”. Pode dar certo por um tempo, mas isso não é suficiente para derrotar Golias.

O outro lado dessa questão está no fato de a nossa volta estarmos cercados de pessoas que se importam conosco. De repente estão ali ajudando, reunindo um exército que nos auxiliará, vestindo-nos com excelentes equipamentos de guerra que nos qualificará para a tarefa. Pessoas que verdadeiramente estão preocupadas conosco e nós nos sentimos tocados por suas preocupações, impressionados por suas experiências, dons e talentos. Surge então o discernimento para saber o que é autêntico, quem sou eu. Qual a minha vocação? Qual é a minha armadura? Isso se chama equilíbrio, discernimento. Com todo esse equipamento, às vezes oferecido, percebe que mal consegue se mover. A autenticidade, e o equilíbrio às vezes nos fará dizer:  "muito obrigado, vou ficar com a minha funda e as minhas pedrinhas".

Para terminar: tornem-se cada vez mais fortes, vivendo unidos com o Senhor e recebendo a força do seu grande poder. Vistam-se com toda a armadura que Deus dá a vocês, para ficarem firmes contra as armadilhas do Diabo. Pois nós não estamos lutando contra seres humanos, mas contra as forças espirituais do mal que vivem nas alturas, isto é, os governos, as autoridades e os poderes que dominam completamente este mundo de escuridão. Por isso peguem agora a armadura que Deus lhes dá. Assim, quando chegar o dia de enfrentarem as forças do mal, vocês poderão resistir aos ataques do inimigo e, depois de lutarem até o fim, vocês continuarão firmes, sem recuar. (Ef 6.10-13)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Mensagem Cristã: Jesus Cristo o Salvador



Viver a Missão, pregá-la com amor, com paixão é exercer o real evangelho de Cristo neste mundo, praticar o exemplo que encontramos em sua Palavra. Não se trata de tarefa fácil, mas é o grande desafio da Igreja Cristã contemporânea, pois em muitos casos a mensagem cristã é identificada (sobretudo em países orientais) com o colonialismo, por isso, nesse caso, deve-se romper com os laços do passado, onde a “fé” e a “missão” serviram de instrumento de subordinação e exploração. Viver a “Missio Dei” (missão de Deus) é viver/praticar a compaixão de Deus em meio ao mundo corrompido, explorado e enganado por suas “próprias paixões”. Durante muito tempo os colonizadores realizaram a expansão ultramarina sob a cruz de Cristo, onde a espada e a fé se fundiram.

Contudo, quando se olha com atenção para a história, e para as palavras de Jesus registradas por Mateus (28. 19-20) surge diante da Igreja um grande desafio: O de ir, de ensinar, esclarecer, para que ocorra a transformação em meio ao povo, gerar discípulos.

É preciso libertar o povo de uma religiosidade e espiritualidade profundamente sincrética, de uma fé que vê Jesus somente como um político que está preocupado com o social, assistencialista, assim como de uma fé intolerante e fanática, que escraviza milhares de pessoas. A Missão também possui o desafio de emancipar pessoas de uma fé que não é experimentada como desafio, que não opera transformação nos corações e mentes, produzindo esperança e regozijo; libertar o povo de uma espécie de repetição mística de tristeza, conformismo, e oferecer-lhes o Cristo Filho de Deus, diferente do então conhecido, um Jesus que transforma vidas, liberta da escravidão do pecado, e garante vida eterna. Pregar um Cristo diferente do que popularmente se difundiu em muitas mentes religiosas, que anunciou o Reino a todos, mas que, insiste na conversão pessoal, na transformação e salvação do indivíduo e de sua realidade.

Precisamos resgatar a teologia da graça da Reforma protestante, a qual aponta para os dilemas teológicos do pensamento a respeito dos méritos. Quando Lutero olhou para o texto de Romanos 3.21-31, assim como toda a carta aos Romanos, fez uma grande descoberta, percebeu que realmente não há nada de bom nele. Nem mesmo os seus esforços, por mais sinceros que sejam, poderiam mudar o seu estado de perdição. Ele depende única e exclusivamente da obra de Cristo na Cruz, que é completa.

A “loucura da Cruz” muitas vezes, é perdida de vista ou mascarada, inventa-se então um evangelho que é maleável, esquecemos da “loucura, do escândalo da Cruz”. E pregamos um Cristo adaptável aos nossos anseios e costumes. Redescobrir Jesus, crucificado e ressurreto se faz necessário para uma prática missionária relevante. Precisamos resgatar o sentido de “ser igreja” de Jesus neste mundo de contradições e ambiguidades no qual vivemos. Somente assim poderemos ter certeza de que estamos contribuindo de maneira real e eficaz para o crescimento do Reino de Deus neste mundo.

Enfim, testemunhar, ensinar, esclarecer é a missão nossa, missionários, pastores teólogos, de todos os conhecedores da Palavra e da história, pessoas que fazem parte da Igreja de Jesus Cristo, seus discípulos. Não existe fé cristã se não existir algo de que é preciso dar testemunho público e incondicional.
“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.” At 1.8
Ângela Reiner Alves – professora de Grego e Hebraico e Coordenadora Pedagógica do CETAD-PB

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ÉTICA/MORAL, RELIGIÃO E POLÍTICA



QUESTÕES INTRODUTÓRIAS SOBRE ÉTICA/MORAL, RELIGIÃO E POLÍTICA

Michael Sandel, professor de filosofia em Harvard diz que os princípios e a moral são bem-vindos ao debate público – mesmo que tenham origem na fé. Diz ele: “Meu motivo para não insistir nessa separação completa entre política e religião é que a política diz respeito às grandes questões e aos valores fundamentais. Então, a política precisa estar aberta às convicções morais dos cidadãos, não importa a origem. Alguns cidadãos extraem convicções morais de sua fé, enquanto outros são inspirados por fontes não religiosas. Não acho que devamos discriminar as origens das convicções ou excluir uma delas. O que importa é o debate ser conduzido com respeito mútuo”.[1]
Bem, como já escrevi em outras postagens, o termo Moral seria conjunto de códigos ou juízos que pretendem regular as ações concretas de dada coletividade. Ou seja, o comportamento dos indivíduos em sociedade, de maneira coletiva ou individual, o que devemos fazer diante de determinada situação.
Ética tem de dar razão, mediante a reflexão teórica, filosófica (conceitual e com pretensões de validade universal) da moral, isto é, tem de acolher o mundo moral em sua especificidade e justificá-lo reflexivamente. O questionamento norteador é: por que devo fazer tal coisa?
Assim, Ética e a Moral são grandezas distintas, mas que ao mesmo tempo se relacionam. Ética está ligada ao esforço de entender, compreender e refletir sobre as condutas, hábitos e valores. Moral está ligada a prática desta conduta, comportamento, como se age e vivenciam-se os preceitos em sociedade.
A relativização dos valores dividiu este mundo, materialmente uno, num número sempre crescente de mundos que, geralmente, não se compreendem uns aos outros. Pode-se utilizar a mesma linguagem científica, os mercados podem estar atrelados, pode-se viajar rapidamente de um continente ao outro, porém vive-se cada vez mais em mundos diferentes.
Como entender o que é certo e o que é errado em uma sociedade relativista? Para julgar o outro é necessário que eu o entenda, e entenda também o princípio de meus julgamentos, algo complexo em uma sociedade de relacionamentos superficiais e egoístas.
Foi deixado por conta de nossa época negar a possibilidade de culpa. Não se está seguro de existir algo como certo ou errado, bom ou mau. E essa completa incerteza acerca dos valores morais está na raiz da terrível confusão de nossa época. Esse caos ético é a razão última de todas as nossas divisões e conflitos. Devido a essa nossa incerteza sobre critérios de certo ou errado, o mundo, que em alguns sentidos está mais unido como nunca (especialmente na comunicação), ao mesmo tempo está simultaneamente dividido como nunca antes esteve.
Se no passado precisávamos percorrer grandes distancias para encontrar princípios morais distintos dos nossos (sair da Europa e ir para a Ásia, Índia, China), hoje basta atravessarmos o corredor de nosso prédio, ou a rua em que se mora para encontrar pessoas vivendo em um mundo completamente diferente, no qual não existe Deus nem lei divina (mesmo que tenha uma crença no sagrado, é uma crença totalmente distinta do que sempre acreditamos e fomos ensinados), onde impera o egoísmo, os instintos animais, a sobrevivência dos mais aptos. Muitas pessoas hoje creem que “certo” é o que é útil para o seu grupo”. Existem tantos mundos quantos grupos desses que acreditam serem sua própria lei.
George Forell, em seu livro “ética da decisão”, diz que “a fim de responder essas perguntas é necessário examinar a natureza da vida cristã. Dentro do processo ético/reflexivo perguntas são norteadoras. O que é esse cristianismo que é defendido em rede de televisão? Tem alguma relação com a fé histórica da Igreja e com o Testemunho da Bíblia? Qual é a resposta cristã ao problema dos critérios ou padrões morais? Sob quais aspectos a vida cristã difere da vida apregoada por aqueles que não crêem em Jesus como o Salvador? Devemos ainda nos perguntar: “O que torna cristã uma vida”? Vida cristã é o mesmo que vida feliz, vida bem ajustada, vida normal? Como cristãos, como podemos exercer nossa cidadania e influenciar a questão do Direito?
            Pode-se dizer que o conceito de cidadania sempre esteve fortemente "ligado" à noção de direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (direto), seja ao concorrer a um cargo público (indireto). No entanto, dentro de uma democracia, a própria definição de Direito, pressupõe a contrapartida de deveres, uma vez que em uma coletividade os direitos de um indivíduo são garantidos a partir do cumprimento dos deveres dos demais componentes da sociedade.
O Direito Positivo, por outro lado, é fruto da vontade soberana da sociedade, que deve impor a todos os cidadãos normas voltadas para assegurar às relações interpessoais a ordem e a estabilidade necessárias para a construção de uma sociedade justa.
O conceito de direito positivo não deve ser limitado ao direito escrito nem ao legislado. O que torna positiva uma norma não é o fato de ela ser fruto da atividade legislativa, pois essa atividade gera apenas as leis, que as regras jurídicas caracterizada por serem impostas pela autoridade política. Porém, são igualmente positivos os costumes e os contratos, pois ambos são formas de criação histórica do direito, a partir do exercício do poder normativo social.[2]
Sendo assim, o Direito Positivo é definido por normas morais de cada sociedade e a moral (comportamento) de uma sociedade muda com o tempo. Por exemplo, até a última reforma do código cível brasileiro o homem que casasse com uma moça e descobrisse que ele não era mais virgem, poderia anular o casamento, com a mudança da moral social essa lei não existe mais.
Com a mudança da moralidade na sociedade discute-se o direito da mulher de interromper a gravidez (aborto). Alguns dizem que isso é uma questão de saúde pública, mas na verdade é uma questão de ética e moral, sobre o valor que se dá a vida, ou se a mãe pode ter o direito sobre outra vida que está sendo gerada dentro dela, decidindo se irá viver ou não. Pois a diferença entre você que está lendo esse texto e um óvulo fecundado é somente os dias que se passaram.
Outra questão: não se permitia que pessoas do mesmo sexo pudessem casar, pois, segundo o Direito Natural cabe a mulher gerar filho, e para que isso aconteça é necessário o espermatozoide de um homem (pois óvulo + óvulo ou espermatozoide + espermatozoide não geram outro ser vivo), e uma das funções da união entre homem e mulher era (é?) gerar descendência, os filhos e filhas. Com isso, a lógica é o casamento entre pessoas de sexo oposto (mesmo que um deles estivesse impedido de gerar filho, seria uma exceção e não a regra).
No caso de uma cultura judaico/cristã, onde o texto Sagrado possui mais de 3.600 anos (em relação ao Antigo Testamento), a prática homossexual não é aprovada, muito menos o casamento homossexual. Não estou questionando o direito (estamos em um estado democrático) de duas pessoas do mesmo sexo querer viver juntas, mas daí a haver uma lei (direito positivo) que venha me impor a aceitar essas práticas como naturais, se nem em relação à anatomia humana isso é natural, são outras questões. Além disso, casamento é uma instituição cristã. Não tenho o direito de tirar o direito do outro de escolher o seu caminho. Mas tenho o direito de dizer que há 3.600 anos o texto bíblico condena essa prática.
Agora, se você quiser dar o seu voto a alguém que defende princípios contrários a esses, também é um direito de livre escolha, embora, nesse caso seja fruto de uma tremenda confusão moral em sua mente.
Então, encerrando esse pequeno texto, ao eleger pessoas que não comungam dos mesmos princípios ético/morais, se está contribuindo para que sejam geradas leis que contrariem os princípios da ética cristã que ensinamos. Ou será que se prega uma coisa e vive-se outra? Aí se entra na hipocria dos fariseus.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012



A vida como Decisão[1]
Como definir ética? Ética é a ciência (estudo/ensino) que se ocupa com a conduta do ser humano, focando especialmente sua responsabilidade pela organização da vida na sociedade (e perante Deus). Dr. Werner Wise, citando Rabusque, define ética como: “ciência normativa do agir humano em vista do seu fim último”[2].

Mesmo que pessoas tivessem que admitir que ocasionalmente deixavam de viver conforme os critérios e padrões morais da sua sociedade, consideravam isso uma reflexão sobre sua própria imperfeição, e não sobre a validade da lei moral. As pessoas, tanto no passado quanto agora, negavam que fossem malfeitores, que tivessem cometido crimes, mas nunca afirmaram que os culpados não deveriam ser punidos.

Foi deixado por conta de nossa época negar a possibilidade de culpa. Não se está seguro de existir algo como certo ou errado, bom ou mau. E essa completa incerteza acerca dos valores morais está na raiz da terrível confusão de nossa época. Esse caos ético é a razão última de todas as nossas divisões e conflitos. Devido a essa nossa incerteza sobre critérios de certo ou errado, o mundo, que em alguns sentidos está mais unido como nunca (especialmente na comunicação), ao mesmo tempo está simultaneamente dividido como nunca antes esteve.

Se no passado precisávamos percorrer grandes distancias para encontrar princípios morais distintos dos nossos (sair da Europa e ir para a Ásia, Índia, China), hoje basta atravessarmos o corredor de nosso prédio, ou a rua em que se mora para encontrar pessoas vivendo em um mundo completamente diferente, no qual não existe Deus nem lei divina (mesmo que tenha uma crença no sagrado, é uma crença totalmente distinta do que sempre acreditamos e fomos ensinados), onde impera o egoísmo, os instintos animais, a sobrevivência dos mais aptos. Muitas pessoas hoje creem que “certo” é o que é útil para o seu grupo”. Existem tantos mundos quantos grupos desses que acreditam serem sua própria lei. 

A anarquia dos valores dividiu este mundo, materialmente uno, num número sempre crescente de mundos que absolutamente não se compreendem uns aos outros. Podemos usar a mesma linguagem científica, depender economicamente uns dos outros e ter condições de viajar rapidamente de um lugar para outro, porém vivemos cada vez mais em mundos diferentes.

O mundo contemporâneo não está dominado por nenhuma fé específica. O hinduísmo não domina a Índia. Quando se conversa com o hindu moderno ele se mostra tão secularizado quanto o norte americano de grande cidade. A estrutura de valores cristãos também não está dominando os EUA e a Europa. Não existe uma fé dominante e abrangente que daria sentido á vida de todos os seres humanos em toda a parte.

Contudo, falando em nosso contexto brasileiro, somos um país cristão em sua esmagadora maioria. Além disso, evangélicos se multiplicam cada vez mais na sociedade, mostrando que até 2035 metade da população brasileira se identificará como evangélico. Mas, em vista da óbvia confusão de valores e de crenças, deveríamos perguntar: “que religião é essa, pregada tão agressivamente em nosso tempo? Essa ênfase nos valores cristãos por acaso significa que realmente queremos levar a sério a vida cristã e seguir sinceramente a liderança, o senhorio de Jesus Cristo? Ou essa ênfase é apenas um esforço para ocultar a profunda incerteza concernente a todos os valores morais que nos ameaça e apavora?

A fim de responder essas perguntas é necessário examinar a natureza da vida cristã. Que é esse cristianismo que é defendido em rede de televisão? Tem alguma relação com a fé histórica da Igreja e com o Testemunho da Bíblia? Qual é a resposta cristã ao problema dos critérios ou padrões morais? Sob quais aspectos a vida cristã difere da vida apregoada por aqueles que não creem em Jesus como o Salvador? Devemos ainda nos perguntar: “O que torna cristã uma vida”? Vida cristã é o mesmo que vida feliz, vida bem ajustada, vida normal? É cristianismo mesmo o que os “tele-evangelistas” apregoam como salvação?

Uma das mais antigas discussões entre filósofos, psicólogos e teólogos trata do problema da liberdade humana. É o ser humano livre para escolher a vida boa? É ele “senhor do seu destino e comandante da sua alma”? Ou foi ele moldado por forças além do seu controle para ser o que é? Quero fazer uma afirmação que pode soar paradoxal: “A liberdade do ser humano é sua servidão”. Ele pode ser livre para tomar muitas decisões importantes a respeito da sua vida. Pode opinar na escolha de seu trabalho, seu cônjuge, seus amigos ou do tipo da vida que deseja levar. Mas existe uma escolha que ele não pode fazer: não pode deixar de escolher. Não pode fugir da sua liberdade. Está fadado a ser livre. Quer goste, quer não, quer acredite, quer não, ele tem que viver tomando decisões constantes e inevitáveis.

Somos pessoas na corrente do tempo. A corrente permanece em movimento. Nada podemos fazer a respeito disso. Não podemos parar. Na verdade vivenciamos esse “tempo”, que medimos tão apuradamente em segundos, minutos, horas e dias, meses e anos, de uma maneira bem confortável. Todos sabem que o tempo é vivenciado como “relativo”, não como “absoluto”; cinco minutos que se passa na cadeira do dentista pode parecer ser mais longo do que uma hora que se passa entretido por uma boa conversa. Essa relatividade do tempo, da qual alguns aspectos podem até mesmo ser medidos, torna a nossa viagem na corrente do tempo ainda mais desconfortável. Entre outras coisas, a velocidade da corrente parece aumentar à medida que se envelhece. Quando éramos crianças, o natal nunca chegava, depois dos 30 os meses começam a voar!

Nessa circunstancia é necessário entender que a vida não apenas exige uma decisão; a vida é decisão. O próprio ato de permanecer vivo implica decisão diária, até mesmo suicidar-se exige decisão. O ser humano não pode evitar as decisões. Não pode escapar da sua liberdade.

Existe algo que possa nos guiar em nossas decisões que tomamos diariamente? Existe um critério ou padrão que possa nos orientar? Um padrão? Você pode apresentar as razões que faz com que você vá a um culto, ao invés de estar passeando na praia? Como foi que você chegou a essa decisão? Houve algum critério importante que você usou para se orientar? Igualmente quando você escolhe uma pessoa como amiga (ou amigo), ao invés de outra, sua decisão é guiada por algum critério de atratividade? Ao escolher um candidato a algum cargo eletivo, sua decisão se baseia em que? Quais os princípios que lhe orientam?

Uma ética essencialmente cristã só pode ser vivida a partir da experiência do “novo nascimento”. Assim, suas decisões são pautadas por princípios ensinados e vividos pelo próprio Cristo.


[1] Anotações a partir de: FORELL, George W. Ética da Decisão. 5.ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2001.
[2] WISE, Werner. Ética Fundamental: critérios para crer e agir. São bento do Sul, SC: Editora União Cristã, 2008. p, 23

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Alcançando Misericórdia



Escrevo poucas palavras sobre misericórdia com base no Salmo 51. Esse Salmo é dirigido a Deus. É uma oração, primeiramente por perdão, com uma confissão humilde de atos pecaminosos provenientes de uma natureza pecaminosa com sua raiz amarga. Na sequencia Davi clama por renovação e santificação por meio do Espírito Santo.

Este Salmo não é um estudo teológico bem elaborado, mas é um clamor apaixonado de um coração profundamente atribulado. Há neste salmo um movimento natural de pensamento, que inicia por um clamor por perdão, e segue com a percepção mais profunda do problema, depois segue com uma oração por pureza e promessa se servir a Deus.

Este Salmo poderia ser contemporâneo nosso. Todos os dias pessoas são afligidas por sua consciência, ou acusadas pelo mal, ou por outras pessoas, por pecados praticados, sejam eles premeditados, ou não.
Acredito que Davi tem algumas coisas a nos ensinar.

Em primeiro lugar não podemos fazer pressão por perdão. A petição é baseada na graça e misericórdia de Deus, nada em nós (vv. 1-4).

A petição inicial, “compadece-te de mim”, é a linguagem que não faz jus ao favor, que implora benignidade, porém, é uma palavra da aliança. Apesar de nada merecer, Davi sabe que ele ainda pertence a Deus. É como o paradoxo nas palavras do filho pródigo: Ao mesmo tempo que se refere ao seu pai como “pai”, diz:  “... já não sou digno de ser chamado teu filho”. Ou seja, a despeito dos problemas permanece filho!!

Davi sentiu uma culpa profunda por sua conivência, mentira, adultério, e, finalmente assassinato. Por trás dessas transgressões ele consegue enxergar a raiz e a causa desse problema. Assim ele ora a Deus para que o purifique do seu pecado. Ele não procura encobrir ou desculpar-se. Embora outros tivessem sido extremamente injustiçados, na essência todo o pecado é contra Deus, e Deus será o juiz.

Em segundo lugar, reconhecer que temos um problema é fundamental para a restauração (vv. 5-9). A convicção de Davi se aprofunda ao incluir não somente o que ele fez, mas também o que ele era por natureza: “Em iniquidade fui formado”. Ou seja, concebido em pecado (5). As tendências e disposições pecaminosas têm sua origem na contaminação da raça humana, parte da dívida do homem como nascido de uma raça caída.

Essa percepção leva Davi a uma oração renovada por purificação. Utiliza o termo hissopo, que trata de um ramo de arbusto usado para aspergir o sangue sobre um leproso para a sua purificação e cura (Lv 14.4; Hb 9.13,14; 1 Jo 1.7). A palavra “lava-me” é impressionante! Tem duas possibilidades no Hebraico, uma lavagem normal na água com sabão; ou como as mulheres lavavam roupas muito sujas batendo na pedra. Ou seja, ao invés de um banho quente e relaxante Davi prefere um tratamento profundo. Ele sabe que o pecado está entrincheirado em sua natureza e que Deus literalmente precisa tirá-lo com batidas! Assim ele ficará mais alvo do que a neve, sem nenhuma partícula de poeira ou fuligem.

A convicção do pecado era tão forte que era semelhante a dor de ossos quebrados. Ossos significam a força e a estrutura do corpo, por isso esmagar os ossos é uma figura muito forte que significa uma prostração completa, tanto mental quanto corporal. A intervenção e a ação de Deus são a única esperança do salmista (9).

Em terceiro lugar, aprendemos que aos perdoados Deus restabelece a alegria e a paz, que são consequências de um coração que se torna ensinável (vv. 10-13). Assim, o resultado é um coração puro, e a renovação de um espírito Reto. A palavra cria tem o significado de uma operação criativa de Deus. Ou seja, uma nova vida. Davi não deseja uma restauração do que existia antes, mas uma mudança radical do coração e do espírito.

Espírito reto é um espírito estável, ou espírito inabalável. Com isso o salmista está convicto que Deus assegurará a sua presença e a plenitude do seu Espírito Santo. A pureza resultará na alegria da salvação e a manutenção de um espírito voluntário, ou pronto a obedecer.

O Salmo nos ensina que aos perdoados o caminho natural é proclamar a salvação do Deus perdoador, assim como prometer adorá-lo para sempre. Nossa vida, precisa do perdão de Deus. Deus quer nos perdoar. Devemos voltarmo-nos a ele, confessar nossas transgressões. Assim seremos limpos, tratados. Teremos uma vida de paz e felicidade na presença do Senhor que nos criou. Aproveitemos e vivamos a liberdade cristã que só a fé em Jesus Cristo como filho de Deus pode oferecer.

Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável.
Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito.
Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer.
Salmos 51.10-12

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Assembleia de Deus é a maior Igreja Evangélica do Brasil




Em 1940, ano em que o quesito religião começou a fazer parte do censo do IBGE, mais de 95% das pessoas se declaravam católicas; nos anos 70, esse número já havia baixado para 90% e em 1991 a porcentagem chegou a 83%, em 2010 o percentual estava em 64,6% da população. No entanto, a quantidade de evangélicos, que envolve diferentes congregações, como a Assembleia de Deus, com mais de doze milhões de fiéis, cresceu de pouco mais de 2%, em 1940, para mais de 22,2%, segundo o censo de 2010. Há projeções que em 20 anos mais da metade da população seja evangélica. Nesse caso a Assembleia de Deus ultrapassa 30% do total de evangélicos do Brasil.

Outro dado interessante que fica claro no censo, que as projeções já demonstravam, é que igrejas que estão na mídia podem ter mais projeção e exposição televisiva, porém não possuem presença real e física na totalidade do território nacional. Nesse caso, por exemplo, a Igreja Universal diminuiu a sua membresia em mais de 300.000 pessoas em relação ao censo do ano 2000, ficando com um total de 1,9 milhão de membros. Sendo que é a primeira vez que é registrada uma diminuição relacionada de uma igreja que não seja fruto de imigração (como por exemplo, os luteranos que historicamente no Brasil estão associados a imigração alemã). Contribuindo ainda para esse fenômeno o surgimento de novas igrejas na mesma linha de trabalho da Universal. Como diz o sociólogo Ricardo Mariano, “esse fenômeno contribui para a privatização da fé em relação a essas igrejas, onde não há um compromisso específico com a organização em si”. Nesse caso há o interesse pessoal, por exemplo, na “bênção”, levando o fiel a migrar para onde mais lhe interessa. Criando o fenômeno da igreja flutuante.

É necessário citar a questão da mídia em relação às igrejas. Há uma linha na missiologia que defende a importância das mídias para a evangelização, como rádios, televisão, internet, entre outros. Obviamente concordo com isso. Contudo, implantação de igreja está identificada com relacionamento pessoal, como contato direto. As mídias somam no processo de evangelização, mas não são determinantes, e o crescimento contínuo da Igreja Assembleia de Deus, que está intrinsecamente ligada à sua constante evangelização e a prática de implantação de igreja, é um prova disso.

Se a média nacional é de 22,2% da população evangélica, na Paraíba é de 15,1%. A SEMAD-PB possui uma parceria com a Sepal para realizar uma pesquisa no estado e cruzá-los com os dados obtidos do censo. Pessoalmente penso que quando concluirmos esse levantamento, o resultado nos surpreenderá.

Nós, paraibanos, ainda temos muita terra a conquistar, mas é inegável o avanço. No censo passado havia dezenas de municípios com menos de 1% de evangélicos em nosso estado. Graças a Deus essa realidade não existe mais! As análises preliminares demonstram que menos de 20 municípios dos 223 possuem menos de 5% de evangélicos (ainda estamos fazendo uma análise mais profunda nos dados do censo e posteriormente daremos dados mais precisos). Obviamente esse crescimento é fruto de trabalhos de várias igrejas, mas nós, que fazemos parte da Assembleia de Deus e que estamos presente em todos os municípios do estado, temos sido incansáveis em projetos de evangelizações em pequenas cidades, distribuição de literaturas (somente a SEMAD, nos últimos 7 anos confeccionou e distribuiu mais de 1 milhão de literaturas evangelísticas), obreiros de nossa igreja implantaram centenas de igrejas em regiões consideradas não alcançadas nos últimos 10 anos. Somente a igreja da capital, após a presidência do Pr. José Carlos de Lima, implantou mais de 60 igrejas nesses 10 anos!

Vamos seguir em frente. Sabemos que Deus tem interesse nesse projeto e é Ele que dará as estratégias e o crescimento. Junte-se a nós, ainda há muita terra a ser conquistada.

Pr. Eduardo Leandro Alves
Sec. Exec. de Missões da SEMAD-PB

sábado, 30 de junho de 2012

Qual o sentido da vida?



Qual o sentido da vida? Essa pergunta é tão antiga quanto a existência humana.

A morte é o limite da vida. Embora pareça redundância, a percepção dessa verdade muda para sempre a nossa vida. Esse tem sido um dos principais temas das filosofias existencialistas.

A vida é ambígua. Abraão morreu já velho e farto de dias, Saul tomou a sua espada e lançou-se sobre ela. Seu filho Jônatas, o fiel amigo de Davi, foi morto no auge da juventude. Judas o traidor enforcou-se. Enoque foi arrebatado por Deus e não foi mais visto.

Avalanches soterram crianças que há pouco ainda sorriam e brincavam. Avalanches não podem ser chamadas à responsabilidades, tal como soldados que abatem crianças, mulheres e velhos. O que é a morte, já que, por um lado, podemos ser responsabilizados por ela e, por outro lado, somente podemos defrontarmo-nos com ela na total ausência de relação de impotência e perplexidade...?

Eberhard Jungel, escrevendo sobre a questão da finitude humana, diz que o neurótico não pode realizar o seu eu e, nessa incapacidade de realizar-se contrai uma enfermidade fatal. Pessoas aposentadas que permitem que se lhes roube a relação ativa do futuro estão ameaçadas pela assim chamada morte por aposentadoria. neste caso, a morte já seria o princípio do fim do futuro de uma vida temporal?

Simeão, já velho, tendo visto o recém-nascido Jesus no Templo, louvou a Deus dizendo: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação” (Lc 2.28). O fato é que diante de uma vida bem vivida, a morte parece perder o seu terror. Por isso, vivamos uma vida para Deus.

Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem.
Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal. 
Eclesiastes 12.13-14

domingo, 17 de junho de 2012

O PROBLEMA DO MAL DE ASAFE !



O mal de Asafe ainda não está catalogado como doença, mas tem feito vítimas aos montões. Essa é uma típica patologia que corrói a mente, vai apagando todas as certezas e transforma a alma que um dia foi vibrante num saco de dúvidas e revolta.

O mal de Asafe chama-se assim por causa do seu mais famoso paciente, um tal de Asafe, ministro de música, cuja experiência está num dos cânticos do saltério hebraico. No salmo 73, ele mesmo se queixa da doença, dá o diagnóstico e descreve sua cura.

As vítimas do mal de Asafe são propensas à zombaria, à militância ateísta, à agressão, ao álcool, às drogas, à devassidão, ao suicídio. Não poucos personagens bíblicos padeceram desse grave distúrbio. São muitos os pacientes da doença de Asafe e uma triste realidade tem de ser admitida, nem todos alcançam a graça da cura, como aconteceu com o próprio Asafe. É preciso tomar mais cuidado com o mal de Asafe, principalmente em tempos tão violentos como os nossos, por razões óbvias.

Agora, quem era Asafe? Ele um judeu, da tribo de Levi, e músico por vocação e deleite (seus filhos também foram músicos 1 Cr 25.1). Seus instrumentos preferidos: a harpa, o alaúde e o címbalo, todos muito antigos. Nas suas apresentações usou com mais frequência os címbalos sonoros e os címbalos retumbantes, instrumentos de percussão compostos geralmente de dois discos de metal, que têm no centro uma pequena cavidade para aumentar a sonoridade. Foi designado músico e cantor pelos levitas, que tinham sob sua responsabilidade os serviços religiosos de Jerusalém (1 Cr 16.4,5). Participou do magnífico cortejo musical que levou a Arca do Senhor da casa de Obede-Edom para a tenda armada pelo rei Davi (1Cr 15. 17,19. Naquele dia o rei o descobriu e fez dele ministro de música. Porque também era músico — exímio tocador de harpa e profícuo compositor de salmos —, Davi deu grande ênfase à música de adoração, como expressão de louvor a Deus. Ele fazia questão de que se levantasse a voz com alegria e reservava a si a supervisão geral de toda atividade litúrgica. Eram 4 mil levitas, que, em 24 turnos, louvavam continuamente o Senhor com instrumentos fabricados por ordem do rei para esse fim. A maior parte era formada de iniciantes, que aprendiam música com os mais competentes. Era uma verdadeira escola de música sacra. Seus filhos faziam parte do corpo docente — 288 mestres ao todo. Os filhos de Asafe escreveram doze dos 150 salmos que estão na Bíblia (os onze primeiros do livro terceiro e o salmo 50). Nesta pequena reflexão quero tratar um pouco a crise que vivenciou e da qual Asafe fala no salmo 73.

Como disse Rui Barbosa, “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” Penso que Asafe chegou a desanimar da virtude. E esse desânimo o levou a uma terrível crise existencial. Quase resvalaram os seus pés em direção ao abismo da incredulidade. (v.2) Pouco faltou para que ele rompesse com a ideia de um Deus sábio, bom e justo, e jogasse fora a rica tradição religiosa até então acumulada. Esteve bem perto de uma violenta mudança de pensamento e de comportamento. Quase trocou os oráculos de Deus pelo horóscopo do dia. Quase trocou o templo do Senhor por um terreiro de macumba. Quase mandou tudo para o inferno, inclusive sua própria alma!

Seu problema é que ele passou a ter inveja dos pecadores. Ele dizia: “eu também sou como eles, sujeito aos mesmos sentimentos e paixões. Por uma questão de princípios e pelo temor do Senhor, eu abortava na fonte os desejos pecaminosos”:

Quantas vezes desejei vingar-me,
Quantas vezes fui açoitado pela ira,
Quantas vezes quis projetar-me,
Quantas vezes fui assaltado pelo egoísmo,
Quantas vezes a falta de recato da mulher alheia me atiçou a lascívia,
Quantas vezes senti desânimo e preguiça.
Mas o amor a Deus falou mais alto,
Meu coração guardei puro,
Resisti os maus desígnios,

Asafe, ao que parece, ofereceu forte resistência a todos esses sentimentos e deles se privou por amor do Senhor e por causa de seu nome. De repente se sente frustrado e se pergunta: “Será que foi à toa que eu me esforcei para não pecar e permanecer puro?”.

Pois, enquanto ele crucificava a sua carne, os pecadores pareciam livres, desinibidos, evoluídos, descomplexados, bem-sucedidos, felizes, seguros, altivos e tranquilos. O que mais o desnorteou foi a falsa impressão de que seu zelo não lhe rendia nada. Ele pensava: “Deus não me trata de modo todo especial”. “Ele não me poupa das intempéries, do cansaço, da aflição, da doença nem da disciplina em caso de erro, por menor que seja”. Outra coisa que machucava o salmista era a popularidade dos pecadores e o seu aparente anonimato.

A crise que a que foi acometido não foi brincadeira. Demorou algum tempo e o desgastou muito. Tentou descobrir o que estava acontecendo, mas em só refletir para compreender isso, achou mui pesada tarefa para ele. Até que um dia Asafe entrou no santuário de Deus e compreendeu o fim último dos ímpios e pecadores que ele estava invejando.

Dentro do templo é outra coisa. Dentro do templo sua vida ganha outra dimensão. Ganha-se, ou recobra-se, como foi no seu caso, a perspectiva cristã da vida, que envolve o tempo presente e a eternidade.

Renova-se a fé na existência e no caráter de Deus. Chega-se outra vez aos seus atributos invisíveis — Ele é eterno, imensurável, incompreensível, onipotente e também supremamente sábio, clemente, justo e verdadeiro.
Dentro do templo somos contrastados com a santidade de Deus, assim eu me senti orgulhoso, desrespeitoso e insolente por haver duvidado da justiça de Deus para comigo e para com os pecadores. Percebi que eu havia retirado o meu voto de confiança em Deus e por isso estava perplexo.
Dentro do templo sua alma se abre e é derramada perante o Senhor a sua ansiedade, a sua aflição, a sua dúvida, a sua revolta.

Então, Asafe começa a entender e ver com clareza. No templo ele se lembra, quem sabe, do salmo de Davi: “Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniqüidade” (Sl 37.1). Tivesse ele memorizado melhor esse salmo, a crise teria sido mais passageira, pois o ímpio prepotente nesta vida se expande qual cedro do Líbano (v. 35), mas será como o viço das pastagens: será aniquilado e se desfará em fumaça (v. 20). Nada teria acontecido a Asafe se não tivesse perdido a certeza de que “mais vale o pouco do justo que a abundância de muitos ímpios” (v. 16). Tão perto dele, tão frequentemente em seus lábios, por que razão deixou o salmista escapar o ensino e o conforto deste salmo e não o aplicou a si mesmo?

Ainda dentro do templo Asafe percebeu que o desastre ocorreu quando a crença tradicional na justiça divina começou a ser abalada em sua mente. Se há algo que precisa permanecer intocável é exatamente a certeza de que Deus “é recompensador dos que o buscam, mas justíssimo e terribilíssimo em seus juízos, odeia todo o pecado e de modo algum terá por inocente o culpado”.

Quando o salmista Asafe saiu do templo estava refeito, curado, revivificado, alegre e disposto, e, ao mesmo tempo, solícito em alimentar-se da verdade, como ensina Davi ainda no salmo 37 (v. 3). Toda a mágoa desapareceu. Dizia ele: “Os pecadores continuam a se afastar do Senhor; mas..., quanto a mim, bom é estar junto a Deus: no Senhor ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos, em prosa e em verso, com címbalos retumbantes e com címbalos sonoros, entre gritos de alegria e louvor — eu, que quase troquei a música de adoração pela música profana! Graças a Deus não me tornei pedra de escândalo para os meus 4 mil instrumentistas e cantores e toda a nação de Israel!”

Permaneça no templo, não apenas o de alvenaria, mas em relação a estar na presença de Deus desfrutando de sua companhia. Que essa experiência de Asafe fale ao seu coração e lhe transmita ensinamentos para a sua caminhada com Jesus!


terça-feira, 12 de junho de 2012

A Felicidade


Bem aventurados...
Segunda a ideia contida no Evangelho segundo escreveu Mateus 5.1-11, a felicidade não está em um lugar ao qual chegamos, em um nome de rua, um número de casa, um CEP, mas na maneira como caminhamos, como vivemos a vida. A felicidade é o maior anseio do ser humano. Corremos a todas as fontes que nos prometem o segredo da felicidade. Jesus nos dá a receita da verdadeira felicidade, e, a boa notícia é que a felicidade não é algo que compramos com dinheiro, mas um presente que recebemos de Deus. O dinheiro pode nos dar uma casa, mas não um lar; pode nos dar conforto, mas não saúde; pode nos dar um rico funeral, mas não vida eterna; pode nos dar aventuras, mas não a felicidade verdadeira.

Devemos entender que a felicidade não está nas coisas que vemos, mas é uma atitude do coração. Não é um pagamento de nossas virtudes, mas um presente da graça. Não é algo que conquistamos pelo esforço, mas um dom que recebemos pela fé.

São sobre essas questões que Jesus trata na introdução do Sermão do Monte, nas Bem-aventuranças. A ideia é que a felicidade não procede do mundo, mas de Deus, pois é na presença de Deus que existe alegria verdadeira e perene. Nesta perspectiva o filho pródigo descobriu que a felicidade não está nos amigos que partiram quando seu bolso esvaziou. A felicidade que o mundo proporciona é passageira e superficial, não resiste aos tempos de crise, aos tempos de invernos. Quando o dinheiro acabou e os amigos foram embora, sentiu o vazio e a solidão da infelicidade. Percebeu que o pecado é uma fraude; promete prazer e produz desgosto; promete vida e gera a morte.

A busca do prazer, da alegria, em si, não é errado, é legítima, mas só pode ser encontrada em Deus. Agostinho, no seu livro confissões declarou: “Senhor, tu nos criaste para Ti, e a nossa alma não encontrará descanso até repousar em Ti”.

Pr. Hernandes Dias Lopes diz que a verdadeira felicidade é um paradoxo aos olhos do mundo, pois consiste em abraçar o que o mundo repudia e repudiar o que o mundo aplaude. Leon Morris diz que essa Bem-aventurança revela o vazio dos valores do mundo. Exalta aquilo que o mundo despreza e rejeita aquilo que o mundo admira. A ideia é que os valores do Reino de Deus são como uma pirâmide invertida. Jesus diz que feliz é o pobre, o que chora, o manso, o puro, o perseguido. Jesus diz que feliz é o pobre de espírito, ou seja, aquele que não se acha autossuficiente, arrogante e soberbo. Jesus diz que feliz é o que chora e não aquele que é durão e insensível. Jesus diz que feliz é o manso, o que abre mãos dos seus direitos e não o valentão que se envolve em brigas intermináveis. Jesus diz que feliz é o pacificador, aquele que não apenas evita contendas, mas busca apaziguar ânimos exaltados dos outros. Jesus diz que feliz é o puro de coração, e não aquele que se banqueteia com todos os prazeres do mundo. Jesus diz que feliz é o que é perseguido por causa da justiça, e não aquele que busca levar vantagem em tudo.

Jesus diz que aquele que ganha a sua vida a perde; mas o que a perde, esse é quem ganha. Jesus diz que o humilde é o que será exaltado. Thomas Watson diz que o mundo pensa que feliz é aquele que está no pináculo, no lugar mais alto; mas Cristo pronuncia como feliz, bem aventurado, aquele que está no vale. 

Assim como a pobreza em si não é um bem, também a riqueza em si não é um mal. Mas o  fato é que essa felicidade não está centrada em coisas externas. Jesus não disse que bem-aventurados são os ricos. Pois, as riquezas por si só não satisfazem. Deus colocou a eternidade no coração do homem, sendo assim, nem todo o ouro da terra poderia preencher o vazio da nossa alma. A verdadeira felicidade não está centrada na posse de bênçãos, mas se encontra na fruição da intimidade com o abençoador. Para alcançar a felicidade, não basta tomar posse (confissão positiva), mas fruir as bênçãos. Um homem pode morar num palácio e não se deleitar nele. Pode ter domínio de um reino e não ter paz na alma. Há uma tendência em todas as possessões materiais de obscurecer as necessidades que elas não podem satisfazer. É a ideia de que uma mão cheia ajuda um homem a esquecer um coração vazio, pois as coisas que comumente esvaziam a vida são as que prometem preenche-la.[1] Jesus tratou disso quando contou a história de um homem que ajuntou muitas coisas em seu celeiro, mas continuou de alma vazia...

A felicidade não está no topo da pirâmide social, nem mesmo no prestígio político e econômico. Quando Davi pecou com Bate-Seba, continuou no trono, mas a mão de Deus pesava sobre ele de dia e de noite. Seu vigor tornou-se sequidão. A alegria fugiu da sua face, e a paz foi se embora do seu coração. A verdadeira felicidade é deleitar-se em Deus, é alegrar-se com o seu sorriso em Deus (Sl 36.8)

Os crentes não serão felizes apenas quando chegarem ao Céu; eles já são felizes antes mesmo de serem coroados. São felizes não somente na glória, mas a caminho da glória.

Sendo assim, as Bem-aventuranças é destinada aos pobres de espírito. Ela faz referencia ao interior e não ao exterior, não ao corpo, mas a uma disposição do ser. Enquanto não formos pobres de espírito Cristo não será precioso para nós, enquanto não formos pobres de espírito não estaremos prontos para receber a graça de Deus. Aqueles que abrigam sentimentos de autossuficiência e sentem-se saciados de si mesmos jamais poderão ser cheios de Deus. Enquanto não formos pobres de espíritos não poderemos ir para o céu. 

Pois os Reino de Deus pertence aos pobres de Espírito. A porta do Céu é estreita e aqueles que se consideram grandes aos seus próprios olhos não podem entrar lá. Sendo assim, o Reino é concedido ao frágil e não ao poderoso; às criancinhas bastantes humildes para aceitá-lo, mas não aos soldados que se vangloriam de poder para obtê-lo por meio de sua própria bravura.


[1][1] HASTINGS, James, apud, LOPES, Hernandes Dias. A felicidade ao seu alcance. São Paulo: Voxliteris, 2008, p. 18.

sábado, 12 de maio de 2012

Religião e Mercado



Pensando de forma simplista sobre algumas situações atuais em relação a fé dá para começar a ficar preocupado. Por exemplo, quando um Padre se torna símbolo sexual, realizando shows, usando calças de couro, faz musculação, camisas apertadas e as mulheres gritam: “gostosão”!  Quando alguns Pastores mais parecem empresários bem sucedidos que administram as igrejas aplicando princípios do “mercado” oferecendo um produto a ser consumido pelas massas. Onde missas católicas são em ritmos de aeróbicas, cultos evangélicos são feitos para entreter os frequentadores e o local arquitetonicamente projetado para a satisfação pessoal e mensagens milimetricamente preparadas para massagear o ego, mas não acusar o pecado, com certeza temos um grande problema.
Não sou necessariamente contra a realização de shows. Mas eles devem ser colocados no seu devido lugar, serem entendidos como isso: apenas como um show, um entretenimento que necessariamente não é errado ou pecaminoso. Mas o fato é que não questionam nada, nem promovem nenhuma mudança real na igreja, por isso não devem ser confundidos com o que, historicamente chamamos de culto de adoração a Deus que produz quebrantamento, arrependimento. Onde a santidade de Deus é contrastada com a nossa pecaminosidade. Pois em meio a tudo isso o evangelho e a evangelização são outra coisa. Porém, parece que já não é mais prioridade. A prioridade é a renovação do sentimento religioso, a redescoberta do prestígio sobrenatural do líder e do prestígio social da igreja, como já foi defendido por um famoso teólogo de nosso tempo.

Em muitos aspectos o evangelho entra em conflito, ou até mesmo em contradição com essa realidade que, para muitos, vai se tornando natural. Muitas das lideranças cristãs, no afã de verem as massas lhes seguindo acabam por adaptar a mensagem às demandas desse “mercado religioso”, com isso anunciam o que as pessoas querem ouvir. Nesse caso ocorre uma subordinação da Missão da Igreja à demanda dos consumidores religiosos.

O problema é que esse modelo se esgota com o tempo. Ao tratar os membros como sócios, ou clientes, logo eles exigirão direitos de consumidores, consumidores religiosos. Levando, por parte dos líderes a um ciclo permanente de inovações, assim como o mercado da tecnologia, onde um celular envelhece em seis meses. Hinos que duram um verão, pregadores que duram uma temporada, verdadeiras estrelas cadentes. Esse sistema gera pessoas que vão à busca das “promoções do mercado religioso” migrando sempre que surge uma “boa promoção”. Pastores que caem nessa armadilha, dificilmente serão lembrados pela próxima geração. Isto é, caso venha a existir uma outra geração para os que seguiram esse caminho de subordinação da Missão da Igreja ao markenting de mercado.
Essa subordinação pode ser entendida como a vitória da lógica do marketing sobre a lógica religiosa ou profética. Na lógica do markenting empresa (ou igreja) procura, em primeiro lugar saber quais são os desejos dos consumidores e a partir disso elabora os seus produtos (bens físicos, simbólicos ou discursos), para atender esses desejos. Enquanto que na lógica profética procura-se conhecer primeiro a vontade de Deus, ou a verdade a ser alcançada através de uma iluminação e depois se anuncia essa verdade mesmo que ela entre em conflito como desejo da maioria da população. Os profetas sempre denunciam o que há de errado na sociedade, nas instituições religiosas e na vida das pessoas e anunciam a esperança de um novo porvir, de uma alternativa possível. Talvez por isso, que, via de regra, os profetas aos olhos humanos “sempre se deram mal”. Elias foi ameaçado de morte, assim como Eliseu, Jeremias foi preso, Daniel traído... a lista seria longa se fossemos tratar de todos, inclusive os discípulos que sofreram martírio, os cristãos primitivos da igreja, etc.

Encerro parafraseando Eugene Peterson: Aplauso estatístico não tem nada a ver com fidelidade. Uma imagem pública brilhante não tem nada a ver com obediência. A Palavra Bíblica “obedecer é melhor do que sacrificar” (1Sm 15.22) é uma proclamação magnífica e clara do tema que mais tarde é retomado e muito bem pregado por Isaías (1.11-15), Amós (5.21-27) e Oséias (6.6). Deus continua a separar os que manipulam a comunidade da fé para servir a si mesmos do que sevem ao Senhor da Igreja.