sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Redil ou covil?











Era um dia comum. Para muitos comerciantes era um dia especial de lucros financeiros. Para líderes religiosos mais um dia para cumprir seus ofícios. Para o povo, mais um dia para cumprir as ordens ritualísticas para encobrir a pecado.

Neste dia tudo corria bem. Todos estavam cumprindo o seu papel. Consciências cauterizadas; rituais vazios; religião de aparências; povo domesticado. Tudo estava normal. Até que...

Até que de repente, não mais que de repente, um jovem pregador, a quem muitos chamavam de Rabi (mestre, professor), sem nunca ter sido associado ao Templo, sem ser fariseu, sem ser saduceu, sem ser zelote, sem ser herodiano, sem estar ligado a nenhum destes grupos do Templo, sem fazer parte do “esquema”, surgiu em plena Jerusalém.

Tudo estava em ordem até que esse pregador vindo de um dos locais mais improváveis, a Galileia dos gentios, entra no Templo. Uma casa que Deus orientou que fosse erigida para que Ele fosse adorado, não apenas pelos judeus, mas como orou Salomão: “também ao estrangeiro que não for do teu povo de Israel, mas vier de terras remotas por amor do teu grande nome, e da tua poderosa mão, e do teu braço estendido, vindo ele e orando nesta casa, então, ouve tu desde os céus, do assento da tua habitação, e faze conforme tudo o que o estrangeiro te suplicar, a fim de que todos os povos da terra conheçam o teu nome e te temam, como o teu povo de Israel, e a fim de saberem que pelo teu nome é chamada esta casa que edifiquei” (2 Cr 6.32.33). Nos tempos neotestamentário a construção era outra, mas a ideia deveria ser a mesma!

Tudo estava em ordem até que este pregador fez uma constatação aterrorizadora: O Templo de Deus, que deveria ser um REDIL, havia sido transformado em um COVIL!!!!

Este pregador, Mestre, chamado de Jesus de Nazaré, foi identificado pelo Apóstolo João como o “Verbo que se fez carne e habitou entre nós”. João o identificou como Deus. Sendo assim, a angústia de Jesus era totalmente justificada, pois os homens haviam mudado o foco da casa que Ele ordenou que fosse construída. Além disso, a mudança aqui não é apenas da estrutura física do Templo, mas uma mudança no interior dos homens, uma mudança de prioridades.

A política religiosa, o status quo, a facilidade que o ser humano tem de buscar sempre o bem pessoal em primeiro lugar, a falta de senso crítico, a ganância, a avareza, as disputas, etc.... Tudo isso fez com que a função do Templo fosse anulada de diversas formas. Uma delas é que o local onde estava havendo o comércio era o chamado pátio dos gentios. Ou seja, se o pátio dos gentios estava loteado, sendo ocupado com vendas, lucro fácil, disputas, não havia lugar para Deus se revelar a outros povos. Sendo assim, Deus continuaria como uma propriedade particular de apenas um povo, que já havia esquecido a muito tempo que deveriam ser uma nação de sacerdotes.

Com esse comércio com o que é sagrado, o nome de Deus era tomado em vão e utilizado para interesses próprios. Não era mais necessário criar o cordeiro sem mácula e transportá-lo com cuidado ao Templo para o sacrifício, era só chegar ao Templo e comprar um cordeiro novinho com um vendedor de sacrifícios! Caso você tivesse um cordeiro, ou outro animal para o sacrifício, mas que não estava nas condições prescritas na Lei, não haveria problemas. Eles aceitavam o seu a base de troca! Você praticamente comprava o sacrifício.

Tudo estava transcorrendo normalmente. Tudo acontecia com a anuência do Sumo-sacerdote (aliás, a narrativa de Lucas dá a entender que Anás e Caifás compartilhavam muito mais do que a simples permissão, estavam envolvidos até o pescoço com esse comércio).

A rotina seguia normalmente... Até que surge esse pregador de Nazaré! Ele faz uma constatação: Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos!. Ou seja, é um redil, um lugar onde ovelhas de todas as nacionalidades possam chegar e serem cuidadas, protegidas, tratadas, alimentadas.

Ele continua: Mas vocês a transformaram em covil de lobos e salteadores! Que coisa! Como eles conseguiram? Redil é um lugar de proteção contra os lobos e salteadores, mas a situação estava tão complicada que os lobos e os salteadores estavam ocupando o lugar das ovelhas, estavam dentro do redil, estavam destruindo as ovelhas...

Às vezes penso se em alguns lugares, em alguns círculos religiosos, em algumas reuniões, os redis estão se transformando em verdadeiros covis. Tem aparência de redil, mas ao entrar, a ovelha é devorada. Tem a sua alma dilacerada, seus sentimentos esmagados, sua fé explorada, sua mente perturbada, sua inocência roubada, sua espiritualidade manipulada...

Até que chegue o Rabi, o Mestre, o Pregador de Nazaré, o Salvador, que virará as mesas, expulsará os lobos, os salteadores, os mercenários, e, como diz Jeremias: Vos darei pastores segundo o meu coração!!!

Em alguns círculos religiosos, reuniões convencionais, os Anás e Caifás modernos deveriam entender que não poderão operar livremente a vida toda. Que as suas mentes cauterizadas pelas disputas não servirão de desculpas...

Até que em um dia comum (talvez não tão comum assim), esse jovem pregador de Nazaré, o Cristo Filho de Deus colocará as coisas no seu devido lugar: OVELHAS NO REDIL, LOBOS NO COVIL.

Eduardo Leandro Alves

Graduado em Teologia pala Faculdade de Teologia Sul Americana (FTSA), mestre em Missiologia pelo Seminário Batista de Educação Cristã (SEC-Recife), pós-graduando-se em Gestão Educacional pela Universidade Gama Filho (UGF), Secretário Executivo de Missões da AD em João Pessoa.

sábado, 19 de setembro de 2009

A Esperança que nos move










Estou cansado e sem forças, mas eu tenho que avançar
Até que Deus me chame a seu lar
E ali tudo brilha e o cordeiro é a luz
Onde as noites são claras, são claras sem par
Sei que algum dia no vale só haverá a paz
Só haverá paz no vale para mim eu sei
{Não haverá tristeza, nem perdas, nem lutas no vale}
Só haverá paz no vale para mim eu sei
Lá o urso é manso e o lobo também
O cordeiro e o leão se dão bem
Crianças conduzem as feras com amor
Onde a terra se encherá oh sim dessa paz
Sei que algum dia no vale só haverá a paz
Só haverá paz no vale para mim eu sei
{Não haverá tristeza, nem perdas, nem lutas no vale}
Só haverá paz no vale para mim eu sei

Conta-se a história que o Reverendo Thomas Dorsey viajava de Lousiana para Ciccinnati em 1939, o comboio que o seguia passou por um vale, Rev. Dorsey notou como os animais que estavam pastando pareciam em paz. Aquele cenário bucólico e tranquilo o inspirou a escrever Paz no Vale (Peace in the Valley).
Esta canção é um clássico da música evangélica mundial traduzida para mais de 100 idiomas A tradução acima tornou-se uma das mais conhecidas em português na voz do Pr. Feliciano Amaral.

Essa canção me faz muito bem. Esta canção me fala de esperança, mesmo que esteja cansado... A esperança é irmã gêmea da fé. Pessoalmente não consigo separá-las, pois a palavra esperança expressa a expectativa ou o ato de esperar, e “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não vêem” (Hb 11.1). É impossível viver neste mundo sem esperança. A tristeza é que muitos já perderam as esperanças. Inclusive crentes. Inclusive obreiros, pastores, missionários... Desculpe a sinceridade... mas não se pode tapar o sol com a peneira... estamos cercados por pessoas que apenas vivem a vida, ou pensam que vivem... na verdade são espectadores sem esperança.

Em muitos púlpitos a esperança se resume às benesses desta vida temporal e fugaz. A esperança, para alguns, não se encontra mais no Reino eterno. Essas pessoas empobrecem o evangelho porque o privam da sua soteriologia. Perde-se o sentido verdadeiro da missão. Nada contra uma vida agradável no aqui e agora, isso é bom. Mas a minha mensagem, a missão da Igreja não está baseada aqui. Somos povo peregrino. Estamos aqui passando uma chuva.

A questão é que a correria da vida, as lutas diárias, as “armações” do mal, as ciladas do Diabo, buscam minar as nossas forças. Com isso, nós cansamos, nos entristecemos... Quem nunca se sentiu assim que atire a primeira pedra!

O problema não é se sentir cansado, O problema é perder a esperança, pois quem perde a esperança nunca vence, pois a vitória da esperança não é chegar em primeiro, é não se cansar, pois só vence quem não se cansa.

Não existe cristianismo sem esperança. Na linguagem paulina, somos salvos na esperança, onde o que é corruptível de revestirá da incorruptibilidade, o que é mortal será absorvido pela vida (2 Co 5.1-11). A esperança é escatológica.

Fiz a citação da canção “Paz no vale”, pois quando me sinto cansado e sem forças, me lembro que tenho que avançar. A esperança me faz caminhar. A esperança é a força motivadora da missão cristã.

Por toda a Bíblia homens e mulheres se mantiveram de pé, seguiram adiante porque possuíam esperança. A Igreja neotestamentária avançou porque possuía esperança, nós precisamos da esperança pra avançamos na missão, pois Cristo Jesus é a nossa esperança.

A ideia da esperança como motivadora é totalmente bíblica. Oscar Cullmann diz que Cristo é considerado como o escatós, como agente da realização escatológica divina em processos diferenciados pela vontade do Pai, ou seja, no Antigo Testamento o sentido escatológico da esperança era ilustrado pelas alianças de Deus com seu povo. Já no Novo Testamento a escatologia divina é manifestada no Filho e executada pelo Espírito Santo, mas no futuro, ela será consumada com a volta de Jesus. Assim sendo, somos ensinados pelo Espírito nas questões que hão de vir.

A posição de Cullmann é pautada na pregação do Evangelho, uma vez que o aspecto kerigmático do cristianismo é essencialmente escatológico. Esta é uma interpretação lógica do “já e ainda não”. O “já” deve ser entendido como uma condição, ou seja, pregar o Evangelho. O “ainda não” é o resultado-conseqüência, isto é, a realização da esperança pela pregação. A igreja (como comunidade), que é condicionada à pregação, anuncia a realidade da esperança na vida cristã e, em consequência disto, a mesma comunidade goza dos resultados dessa pregação. Segundo o Rev. Ismar do Amaral, resta-nos, apenas entender como fica a missão, uma vez que a compreensão da Grande Comissão (Mt 18.18-20; Mc 16.15-17; Lc 24.47-49; Jo 20.19-23; At 1.6-11) é de caráter imperativo e não condicional. Daí, entende-se que a esperança está em realização (o ainda não).

Ou seja, ainda seguindo o raciocínio do Rev. Ismar do Amaral, quando a Igreja através do anúncio profético fala à humanidade sobre o Reino de Deus, ela motiva as pessoas à fé em Cristo, desperta a esperança. Assim sendo, falar do Reino de Deus é falar do propósito redentor de Deus para toda a criação e da vocação histórica que a Igreja tem em relação a este objetivo no aqui e agora. É também falar de uma realidade escatológica que constitui simultaneamente o ponto de partida e a meta da Igreja. A missão da Igreja, consequentemente, só pode ser entendida á luz do Reino de Deus. E já que este Reino foi inaugurado em Jesus Cristo, não é possível entender corretamente a missão da Igreja sem entendermos a própria missão de Jesus. É a manifestação, ainda que incompleta do Reino de Deus, tanto por meio da proclamação, como por meio do ensino, comunhão e ação social. Desta forma, a Igreja como comunidade do Reino produz sinais visíveis e estes devem ser direcionados aos cativos e perdidos. O viver da comunidade é antecipar a presença do Reino de Deus no meio do povo. Isso é esperança.

A despeito de todas as lutas e agruras diárias, a missão da Igreja deve continuar cheia de esperança, pois a esperança faz você cantar: “Estou cansado e sem forças, mas eu tenho que avançar / Até que Deus me chame a seu lar / E ali tudo brilha e o cordeiro é a luz / Onde as noites são claras, são claras sem par / Sei que algum dia no vale só haverá a paz / Só haverá paz no vale para mim eu sei.

Cumpra a Missão. Viva uma vida cristã plena. Encha-se de esperança.


Eduardo Leandro Alves – Secretário Excutivo de Missões da AD na Paraíba (SEMAD-PB), escritor, articulista, graduado em Teologia pela FTSA (Londrina), Mestre em Teologia Prática (Missiologia) pelo Seminário Batista de Educação Cristã (SEC – Recife), pós graduando-se em Gestão Educacional pela Universidade Gama Filho.

sábado, 1 de agosto de 2009

Para que ler a Bíblia?




Um discípulo chegou para seu mestre e perguntou:
- Mestre, por que devemos ler e decorar a Bíblia se nós não conseguimos memorizar tudo e com o tempo acabamos esquecendo? Somos obrigados a constantemente decorar de novo o que já esquecemos.
O mestre não respondeu imediatamente ao seu discípulo. Ele ficou olhando para o horizonte por alguns minutos e depois ordenou ao discípulo:
- Pegue aquele cesto de junco, desça até o riacho, encha o cesto de água e traga até aqui. O discípulo olhou para o cesto sujo e achou muito estranha a ordem do mestre, mas, mesmo assim, obedeceu. Pegou o cesto sujo, desceu os cem degraus da escadaria do mosteiro até o riacho, encheu o cesto de água e começou a subir de volta. Como o cesto era todo cheio de furos, a água foi escorrendo e quando chegou até o mestre já não restava nada.
O mestre perguntou-lhe:
- Então, meu filho, o que você aprendeu? O discípulo olhou para o cesto vazio e disse, jocosamente:
- Aprendi que cesto de junco não segura água.
O mestre ordenou-lhe que repetisse o processo de novo. Quando o discípulo voltou com o cesto vazio novamente, o mestre perguntou-lhe:
- Então, meu filho, e agora, o que você aprendeu? O discípulo novamente respondeu com sarcasmo:
- Que cesto furado não segura água.
O mestre, então, continuou ordenando que o discípulo repetisse a tarefa. Depois da décima vez, o discípulo estava desesperadamente exausto de tanto descer e subir as escadarias.
Porém, quando o mestre lhe perguntou de novo:
- Então, meu filho, o que você aprendeu?
O discípulo, olhando para dentro do cesto, percebeu admirado:
- O cesto está limpo! Apesar de não segurar a água, a repetição constante de encher o cesto acabou por lavá-lo e deixá-lo limpo.
O mestre, por fim, concluiu:
- Não importa que você não consiga decorar todas as passagens da Bíblia que você lê, o que importa na verdade, é que através deste processo a sua mente e a sua vida ficam limpas diante de Deus.

Autor desconhecido

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A TENTAÇÃO


Na vida temos muitas perguntas a fazer. Por que tantas desgraças? Furacões, terremotos, fome, guerras... Assassinos, pedófilos, etc. Por que tantas pessoas invejosas, fofoqueiras, maldizentes? Há alguns anos atrás li um livro de Philp Yancey que marcou a minha vida, “o Jesus que eu nunca conheci”. Entendi que a forma que Deus gestou a salvação da humanidade foi a mais bela, fantástica e altruísta que só o Divino poderia criar.
O primeiro “ato oficial” de Jesus (entendendo que o seu ministério começou após o batismo) quando foi para o deserto enfrentar o diabo, poderia ter resolvido todas as questões humanas. O próprio Satanás tentou Jesus para que ele mudasse as regras, para que pudesse atingir o seu alvo de uma forma mais fácil, pegando um atalho. Nessa tentação o caráter de Jesus estava em jogo, a história humana estava na balança.
A idéia da tentação: transforma essa pedra em pão, coloca em evidência a tentação do Edem, embora de forma inversa: “você pode ser verdadeiramente humano”? Creio que Satanás não estava apenas fazendo cena, assim como tentou Adão e Eva, estava tentando Jesus com golpes mortais.
Jesus, após ter jejuado 40 dias, chega ao encontro debilitado fisicamente, “tinha fome”. No Edem a tentação colocou dúvida: “será que Deus disse realmente isso?”. Já no deserto: “Será que você é realmente filho de Deus?”. A tentação era colocar Jesus acima de seres humanos, use o seu poder, sacie a fome, coma sem se sujeitar as regras fixas da agricultura. Os outros passam fome, você não! Enfrentar riscos sem o perigo: “pule dessa altura, você não é filho de Deus?”. Enfrente riscos sem o perigo costumeiros das pessoas. Darei tudo a você, desfrute da fama sem a perspectiva da rejeição dolorosa. Em suma: “Use a coroa em vez de uma cruz”.
Qual era a visão que as pessoas tiinham do Messias? Um Messias que pudesse transformar pedra em pão? Um Messias da Torá que aparecesse no pináculo do Templo? Um Messias Rei que governasse os reinos da terra? Satanás estava oferecendo a Jesus que ele fosse o Messias que todos desejavam.
Desejamos tudo, menos o Messias sofredor de Isaías 53. Satanás tocou no “X” da questão. Por toda a sua vida Jesus se deparou com essas tentações. Até mesmo Pedro sugeriu que Jesus não deveria enfrentar a Cruz: “Não tome o caminho mais difícil”. Pregado na Cruz Jesus mais uma vez escuta a tentação de Satanás: “Se és filho de Deus, desça da cruz, salve a você e a nós mesmos”. Mas não houve livramento, nem milagre, nem caminho sem dor.
Se Jesus tivesse seguido os “conselhos” de Satanás ele poderia (pelo menos aos olhos humanos) realizar a sua missão de uma forma mais rápida e mais fácil. Ele poderia conquistar as multidões criando alimento quando necessário, assumindo o controle do mundo e o tempo todo se protegendo do perigo.
Dostoievski, em seu livro os Irmãos Karamazov, conta-nos uma fábula, por meio de seu personagem, Ivan. Esta fábula fala sobre a tentação de Jesus. Na época da inquisição um Jesus disfarçado visita uma cidade num período em que os hereges estão sendo queimados. O grande inquisidor, um cardeal já bastante idoso, percebe que Jesus está andando pela cidade, pois as multidões o seguem. O cardeal não gosta desta aparição e o lança na prisão. Ali eles se encontram e travam um diálogo. O inquisidor tem uma acusação a fazer: rejeitando as três tentações, Jesus perdeu o direito aos três grandes poderes que estavam a sua disposição: “milagre, mistério e autoridade”. A idéia era: Será que Jesus não percebeu que era isso que o povo queria? Disse o cardeal: “Em vez de tomar posse da liberdade dos homens, aumentaste-as e queimaste o reino espiritual da humanidade com seus sofrimentos eternos. Desejaste o amor livre do homem, que ele te seguisse livremente, atraído e cativo por ti.”
Quando Jesus resiste às tentações, segundo o pensamento do cardeal, Jesus tornou-se difícil demais de ser aceito. Sujeitou sua vantagem maior: o poder de impor a fé. Felizmente, disse o cardeal, a Igreja reconheceu o erro e o corrigiu, e tem se apoiado no milagre, no mistério e na autoridade desde então. Por esse motivo, o inquisidor deveria executar Jesus mais uma vez, para que ele não impedisse a obra da Igreja.
A tentação do deserto revela uma profunda diferença entre o poder de Deus e o poder de Satanás. Satanás tem só poder de coagir, de estontear, de forçar a obediência, de destruir. Os seres humanos aprenderam bem beber desse poder. O poder de Satanás é coercivo e externo.
O poder de Deus é diferente, é interno e não coercivo. “Não se pode escravizar o homem por meio do milagre, e a fé necessária é gratuita, não fundamentada em milagre”, disse ao cardeal. Tal poder pode parecer fraqueza, como todo pai e todo bom amante sabem, o amor pode tornar-se impotente se a pessoa amada prefere desprezá-lo. Na história da salvação o Criador se tornaria uma vítima, indefeso diante de um pelotão de soldados em um jardim. Deus se fez fraco com um propósito: deixar que os seres humanos, livremente, escolhessem por si só o que fazer com Ele. Kierkegaard escreveu: “A onipotência que pode colocar a sua mão fortemente sobre o mundo pode também tornar o seu toque tão leve que a criatura recebe independência.”
As vezes sou tentado a pensar que Deus deveria agir com mais rigidez no mundo. Se Deus estendesse a Sua mão e tirasse do nosso meio as pessoas más e miseráveis, corruptos, avarentos, falsos mestres e prepotentes, as coisas seriam mais fáceis. Porém, quando penso assim, percebo em mim o sussurrar da tentação do deserto, do desafio que foi lançado sobre Jesus há dois mil anos. Deus resiste a essas tentações agora como Jesus resistiu as de Satanás no deserto. Diz-nos George MacDonald: “Em vez de esmagar o poder do mal pela força divina; em vez de compelir a justiça e destruir os perversos; em vez de estabelecer a paz sobre a terra por meio de um príncipe perfeito; em vez de reunir os filhos de Jerusalém sob Suas asas, quer queiram quer não, e salvá-los dos horrores que angustiavam Sua alma profética – Ele deixa o mal operar à vontade enquanto existir; contentou-se com os métodos lentos e desencorajadores de ajuda essencial; tornando os homens bons; expulsando, não apenas controlando Satanás [...] Amar a Justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la [...] Ele resistiu a cada impulso de operar mais rapidamente para um bem inferior.”
Esse é o nosso desafio: entender a tentação para que sigamos Jesus e não a Satanás com suas sutilezas e seus atalhos que nos desviam da Cruz.
Eduardo Leandro Alves

domingo, 7 de junho de 2009

Que voz estamos ouvindo?





“A vós outros, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens....”




Pr. Dennis Allan afirma que todos nós ouvimos vozes. Não estou falando de um louco que imagina conversas, nem da noção de alguma voz sobrenatural que sussurra mensagens ao subconsciente. Uma das formas de ouvirmos vozes é quando damos atenção à influência de pessoas e as suas idéias. Algumas boas, outras nem tanto.

Davi escreveu: “Há no coração do ímpio a voz da transgressão; não há temor de Deus diante de seus olhos. Porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos e lhe diz que a sua iniqüidade não há de ser descoberta, nem detestada” (Sl 36.1-2). O que é triste é que muitas pessoas dão ouvido a voz da transgressão. Essa voz oferece o atraente fruto proibido, e promete a liberdade para pecar sem conseqüência. Mesmo com inúmeras histórias que comprovam que pecado não fica encoberto, e apesar das abundantes advertências contra o pecado, a voz da transgressão tenta convencer que dessa vez será diferente, o pecado não será descoberto e, afinal de contas, não é nada tão grave. Deus não irá castigá-lo por alguns prazeres “inocentes” na vida. Ela pode até tentar nos convencer que o pecado trará benefícios, que seja a melhor escolha para nosso bem (cf. Gn 3.4-6). A voz da transgressão é enganosa!

Contudo, o livro de Provérbios no capítulo 8 fala de uma outra voz que nos chama. A sabedoria é personificada neste capítulo, e ela levanta a sua voz e chama as pessoas a escutarem: “A vós outros, ó homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens.... Ouvi, pois falarei coisas excelentes; os meus lábios proferirão coisas retas. Porque a minha boca proclamará a verdade; os meus lábios abominam a impiedade.... Melhor é o meu fruto do que o ouro, do que o ouro refinado” (Pv 8.4,6,7,19). A sabedoria se baseia no temor do Senhor (Pv 8.13). Como se pode observar no Salmo 36.1, o ímpio foge deste temor e recusa ouvir a voz da sabedoria. “O temor do SENHOR é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino” (Pv 1.7).

Para muitas pessoas, a busca da sabedoria de Deus parece uma tarefa por demais difícil e tediosa, enquanto os prazeres da carne e as atrações do mundo parecem interessantes e agradáveis. Na vida ouviremos essas duas vozes. Devemos decidir, diariamente, a ouvir uma voz e rejeitar a outra. Como seu pastor e amigo oro para que a sua decisão seja de ouvir a voz do Senhor, a voz da sabedoria. Não se engane: a sua decisão terá implicações eternas!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Aprendendo a Contar os Nossos Dias












Por: Ariovaldo Ramos

Há alguns dias estive no aniversário de um grande amigo e ponderei sobre a sábia e enigmática frase de Moisés: "Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio." (Sl 90.12). Parece que esse conselho, do grande libertador, sempre nos vem à mente nessas ocasiões. Porém, apesar da beleza da fala do homem de Deus, permanece o desafio do tipo "decifra-me ou o devorarei": o que significa contar os dias da maneira proposta?

Não sei se alguém tem a resposta, mas eu gostaria de propor uma.

Jesus Cristo, certa feita, disse: - "E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos." (Lc 16.9). Na ocasião, ele estava respondendo ao ataque de alguns fariseus, que estranhavam o fato de Jesus estar recebendo publicanos e pecadores. Por uma questão de justiça para com os fariseus é preciso que se diga que, em princípio, eles tinham razão: publicanos e pecadores não eram simples almas perdidas; eram membros do povo de Israel que traíram ao seu Deus e ao seu povo! Não tivessem os romanos privado os judeus de aplicarem a justiça, tais pessoas teriam sido apedrejadas. Para dar essa resposta, o Senhor lançou mão de quatro parábolas: a ovelha perdida, a dracma perdida, o filho perdido e o administrador infiel.

Na primeira, fala de um pastor que abandona, no campo, 99 ovelhas e vai atrás da que se perdeu. Uma loucura! Deixar seu aprisco à deriva de ladrões e animais selváticos e, mais, quando volta, vai festejar o achado. E as demais ovelhas? Uma loucura! Com essa parábola Jesus parece confirmar que ao receber publicanos e pecadores estava, aparentemente, fazendo uma loucura, mas Ele viera para isso mesmo: cometer uma ´loucura´ pela salvação dos homens.

Na segunda parábola Jesus explica o porquê da disposição à loucura, o valor do homem: embora para os fariseus o publicano e o pecador valor nenhum tivessem, Jesus os via de modo diferente. E como a senhora que, perdendo uma dracma, cerca de R$ 0,30, desarruma tudo concedendo a moeda um valor que de fato não possuía, assim, também, para Jesus o ser humano mais pecador é tão valioso que vale a pena desarrumar tudo para achar um, como fez a mulher que perdeu a dracma.

Na terceira parábola o Senhor, num primeiro momento, concorda com os fariseus, os publicanos e os pecadores são os filhos que, como o filho pródigo, por vontade própria, se apartaram do Pai amoroso. Porém os fariseus, representados pelo irmão mais velho, não conseguiram se sintonizar com o coração do Pai vez que, confiados em seus pretensos méritos próprios acabaram por desenvolver um senso de justiça própria, que os tornou incompassivos e judiciosos.

Por fim, por meio da parábola do administrador infiel Jesus acusa os fariseus de estarem mal administrando fortuna alheia, tanto a vida quanto o conhecimento lhes foi legado e este saber deveria ter-lhes desenvolvido o senso da impossibilidade, ou seja, a consciência de que, jamais, por si mesmos, conseguiriam viver segundo tão elevado padrão e que, o melhor que poderiam fazer era, a partir do que sabiam, diminuir a distância entre os pecadores e Deus pela compreensão, pelo amor, pela bondade, pelo ensino, fazendo amigos a partir de riqueza alheia, pois tanto a vida como a revelação pertencem a Deus. "Para que, quando aquelas (a vida e a sabedoria) vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos." (Lc 16.9).

Ao recomendar aos mestres da lei que usassem a vida e o conhecimento para fazer amigos para a eternidade, o Senhor respondeu nossa pergunta: - Como viver de modo a alcançar coração sábio? E a resposta de Jesus é: - Vivendo para fazer amigos, pessoas de quem nos aproximamos para aproximá-las de Deus e, para dEle, por elas, sermos aproximados.

Por quê?

Porque como disse o psicólogo suiço Hans Burky:- "O Reino de Deus é um reino de amigos". Porque amigo é esteio nas horas difíceis: "Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão." (Pv 17.17). Porque amigo é fonte de amadurecimento: "Como o ferro com o ferro se afia, assim o homem, ao seu amigo." (Pv 27.17). Porque amigos são para sempre. Embora, na ressurreição, nem nos casaremos, nem nos daremos em casamento; sendo, porém, como os anjos no céu (Mt 22.30), teremos amigos: aqueles amigos que nos receberão nos tabernáculos eternos! (Lc 16.9).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

AS MARCAS COM QUE SAÍ DA 39ª AGO DA CGADB


Sou um jovem obreiro da Vinha do Senhor, hoje com 32 anos, casado e pai de um menino lindo. Entrei no Seminário teológico aos 17 anos, conclui aos 20. Fui ordenado ao Ministério com 27 anos, e mesmo antes disso já desenvolvia diversas funções na estrutura da igreja. Sou neto de pastor (tanto por parte de mãe quanto de pai), meu pai era presbítero da igreja (dirigiu várias igrejas), sobrinho de pastor, irmão de pastor... Enfim, sou a terceira geração dentro da igreja. O Senhor me deu o privilégio de ter uma formação Teológica sólida e em escolas de excelente qualidade. Meus diplomas não são comprados pela internet. Escrevi seis livros, publiquei artigos (inclusive no Mensageiro da Paz). Tenho o privilégio de servir ao Senhor em uma excelente igreja com um excelente Pastor presidente e lá desenvolver a vocação que o Senhor me concedeu. Estou escrevendo estas informações pessoais para dizer que, embora jovem, possuo raízes profundas. Talvez quando os meus cabelos embranquecerem, eu olhe para trás e leia este artigo e então perceba que na juventude deveria ter sido mais ponderado em minhas palavras... Mas o fato é que neste momento em que escrevo estas palavras, sentado na cadeira apertada deste avião, percebo que não é somente os espaços diminutos das cadeiras que incomodam as minhas pernas, mas o aperto que sinto no meu coração é mais apertado e incômodo do que estas cadeiras.

Estou voltando da 39ª AGO da CGADB no estado do Espírito Santo. Volto desta AGO com marcas profundas. Sinceramente, não sei se em minhas orações peço a Deus para que apague estas marcas ou para que as deixe para que eu nunca mais me esqueça do que aconteceu, dos sentimentos que tive sentado naquele auditório. Não seria elegante de minha parte relatar algumas das palavras ditas (bem feias, diga-se de passagem) e nem algumas cenas deploráveis que presenciei.

Talvez alguém diga: “ele ficou assim porque o vencedor do pleito não foi o que ele votou”. Tenha certeza, esse não é o problema.

As marcas com que saí desta AGO me dizem que está banalizado o Ministério Pastoral. Todos nós somos pecadores e estamos sujeitos ao erro. Não foram poucos os erros apresentados naquela plenária, sobre tudo em relação a balanços financeiros “maquiados”, informações falsas, e que ficou comprovado. Mesmo assim não houve nem um pedido de desculpas, perdão. Nem uma palavra como: “por favor, em nome de Jesus me perdoem, foi um erro acidental, não uma prática comum”. Nada disso. Pelo contrário. Fomos brindados com uma “pérola”: “isso é prática comum nas convenções e presidência de ministérios”! Só se na convenção ou ministério de quem disse isso!! Na igreja em que trabalho não!!! Na Mesa, nem uma palavra sobre isso. Assistiam a tudo imóveis (pelo menos essa era a impressão que se tinha do plenário); nem um pedido de perdão, desculpas... Talvez para eles pastor pedir perdão não seja ético. No final, 80% da chapa foi eleita. Sem desculpas, sem maiores explicações... mas a culpa não é deles... talvez estejam certos... talvez realmente seja prática comum... a maioria aprovou a continuidade... e uma continuidade a mais de 20 anos... é... talvez realmente seja prática comum. Tão comum que a maioria nem se espanta quando nem uma retratação pública é feita.

As marcas que saí desta AGO também foram feitas por “cabos eleitorais”. Me perdoem a franqueza, pareciam mais “Pit buls” enfurecidos a berrar nos microfones: “prevaricou, prevaricou, prevaricou!!!” A impressão que tenho é que nunca vou esquecer o olhar, o rosto de um deles vociferando no microfone e em direção a câmera que transmitia as imagens para o telão. Nesse momento alguns de nós se sentiram como “ovelhas no meio de lobos”. Ainda fecho os olhos e vejo aquela face raivosa vindo em minha direção.

As marcas que saí desta AGO me confirmam que o poder corrompe, e que as pessoas se apegam a ele. Também me diz que Jesus não criou a igreja para ser uma instituição tão poderosa que amizades de anos se percam nesta disputa. Alguns tem a ousadia de dizer que no plenário vale tudo, os nervos se exaltam... Mas do lado de fora não... é... Talvez seja verdade, talvez Jesus só esteja mesmo do lado de fora...

As marcas que saí desta AGO me fez lembrar das palavras de Jesus: “o que adianta ganhar o mundo intero e perder a sua alma”? Estas marcas me fazem lembrar que perder a alma não é só ir para o inferno. Você perde a alma quando perde a sua família, seus amigos. Você perde a alma quando se vende para a instituição, para a politicagem, para a disputa sem escrúpulos, quando se vende para o poder. Quando isso acontece, os sentimentos se entorpecem, a mente cauteriza... Ganha-se o mundo... Perde-se a alma, perde-se o libertador da vida.

As marcas desta AGO me fizeram lembrar de um texto do livro “Sete Hábitos das Pessoas Muito Eficazes”, escrito por Stephen R. Covey: “Quando olho para as tumbas dos grandes homens, qualquer resquício de sentimento de inveja morre dentro de mim; quando leio os epitáfios dos magníficos, todos os desejos desordenados desaparecem; quando me deparo com o sofrimento dos pais em um túmulo, meu coração se desmancha de compaixão; quando vejo a tumba dos próprios pais, lembro-me de como é vão chorarmos por aqueles que logo seguiremos; quando vejo reis colocados ao lado daqueles que os depuseram, quando medito sobre os espíritos antagônicos enterrados lado a lado, ou os homens sagrados que dividiram o mundo com suas discussões e contendas, medito cheio de dor e surpresa, sobre a pequenez das disputas, facções e debates da humanidade. Quando leio as variadas datas dos túmulos, algumas recentes, outras de seiscentos anos atrás, penso no grande Dia, no qual seremos todos contemporâneos, e faremos nossa aparição conjunta”.

As marcas desta AGO me dizem que a sedução do aplauso é vã. As disputas e invejas nos igualam aos homens maus. Para os que entram na corrida por posição e triunfo, não há vencedores, é uma corrida perversa que no fim esmagará a nossa alma. O Reino de Deus é diferente, o maior é o menor; a matemática de Deus é diferente, Ele deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma; revira toda uma casa arrumada para encontrar uma simples drácma perdida. Os valores do Reino são superiores, não podemos trocá-los pela moda do dia ou por um poder temporal. Somos chamados a sermos ovelhas.

Houve um homem na história, filho de um bom pai, educado nos princípios religiosos que seus pais haviam recebido de Deus, mas que não conseguiu compreender os princípios do Reino de Deus. A história não o perdoou. Esse homem é Esaú. A história acusa Esaú de trocar a benção futura por um prazer imediato (Hb 12.16), dando a ele um adjetivo: profano.

Não sei se vale a pena orar a Deus para que apague estas marcas. Não quero ser lembrado como PROFANO. Quero tentar entender o Reino de Deus. Quero aprender a me arrepender das minhas mazelas. Quero aprender a pedir perdão. Não quero perder a minha alma.

Eduardo Leandro Alves
24 de abril de 2009

sábado, 21 de fevereiro de 2009

FALANDO SOBRE A IGREJA


O que você pensa da igreja? Qual a relação que você tem com ela? Para você a igreja é este templo apenas, ou também é composta de relacionamentos? Estes relacionamentos... Como são? São significativos, superficiais...

Uma boa forma de pensarmos sobre essas questões é darmos uma olhada nas igrejas do Novo Testamento.

Pr. Ricardo Agreste escreveu que em uma reunião do Projeto Timóteo, alguns jovens pastores foram incentivados a falarem sobre as suas vidas e seus ministérios. Falaram apenas um pouco de si mesmo, e muito das igrejas e dos projetos em que estavam envolvidos. Pareciam pais entusiasmados com as proezas de seus filhos. Passaram exaltar os feitos de suas igrejas...

Depois de ouvir todas essas argumentações, o moderador, um pastor experiente com os seus cabelos já brancos (contrastando com os jovens pastores presentes), de cabeça baixa e fala mansa falou: “sabem, a cada dia que se passa mais me convenço de quão bíblica é a minha igreja local. Observando as pessoas que se reúnem domingo após domingo e conhecendo suas histórias de segunda a sábado, identifico inúmeros pontos em comum com igrejas locais descritas nas páginas do Novo Testamento. Em minha igreja, temos alguns imorais, vários idólatras, um punhado de adúlteros e te mesmo homossexuais. Caluniadores e trapaceiros então... já perdi a conta de quantos são”.
Essa compreensão é chocante!!!!

O APÓSTOLO PAULO E SEUS “SANTOS”

Passando o espanto inicial e analisando as cartas do Apóstolo Paulo destinadas às igrejas, percebemos que elas estão cheias de exortações e repreensões devido a problemas como divisões, fofocas, adultérios, incestos, litígios entre pessoas, atitudes e preconceito entre ricos e pobres, entre outras coisas.

Mais surpreendente é como Paulo inicia as suas cartas. Sem exceção Paulo chama de SANTOS. Mas como chamar de santas pessoas assim? Em seguida entendemos que Paulo os chama de Santos em Cristo Jesus!

A não compreensão deste ponto tem levado muitas pessoas a enxergarem a igreja de uma forma crítica e severa. Algumas pessoas colocam em dúvida a validade da igreja enquanto comunidade dos discípulos de Jesus, por causa da qualidade de vida de algumas das pessoas que dela fazem parte. O filósofo ateu Friedrich Nietzche escreveu: “eu creria na salvação se eles (os cristãos) se parecessem um pouco mais com pessoas que foram salvas”.

Esta idéia tem feito muito mal às pessoas. Philip Yancey, em seu livro “maravilhosa graça”, escreveu: “rejeitei a igreja durante algum tempo porque encontrei bem pouco graça ali. Voltei porque não descobri graça em lugar nenhum”.

O grande problema é a falta de compreensão do material que Deus utilizou para formar a igreja. Se entendermos o porque Deus fez a igreja, compreenderemos melhor a vida da igreja. Ou seja, Deus não criou a igreja com o propósito que divulguem as suas próprias virtudes enquanto indivíduos, mas sim as virtudes de Deus em amá-los, perdoá-los e restaurá-los por meio da obra de Jesus Cristo na cruz. Com isso, a igreja se torna uma comunidade de agraciados, limitados e imperfeitos, mas a cada dia, trabalhados e lapidados por Deus por meio de seu imenso amor.

A IGREJA DE CORINTO

A própria cidade de Coríntios era bem complicada para uma igreja. Era uma metrópole caracterizada pelo comércio e, como uma cidade portuária, recebia pessoas de todos os lugares e sofria influências culturais variadas. A igreja trazia consigo influencias da cultura desta cidade, onde as ações comuns de uma cidade pagã se misturavam com os valores cristãos, dando origem a muitos problemas.

Paulo escreveu aos cristãos de Coríntio 6.9-10:
"Não sabeis que os injustos não hão de herdar o Reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus".

UMA MÁ NOTÍCIA

Lendo estas palavras de Paulo, parece que ele está nos apresentando uma lista de pessoas que, devido a natureza dos seus erros, já estão pré-cozidas no inferno.

O problema pode ficar mais sério se entendermos que Paulo não tinha a intenção de criar uma relação exaustiva de erros que impediriam as pessoas de herdarem os céus. Em Apocalipse 21.8 há mais coisas “feias” listadas.

Ainda temos a criatividade humana que ao longo da história desenvolveu diferentes versões de perversão (chamados de programas de entretenimento para executivos estressados), de imoralidades (presente em programas de TVs do tipo Reality Show), de idolatria (como a adoração ao corpo, a imagem pessoal, ao dinheiro e aos bens materiais), de adultério 9como sexo virtual pela internet), de roubo (como desvio de verbas públicas, super faturamento de obras, propina, etc).

Assim, se a nossa primeira impressão deste trecho da carta de Paulo está certa, então termos duas conseqüência:

1. Na história, a igreja deverá ser uma comunidade limpa e pura, formada apenas por indivíduos e famílias nota dez. Gente corada, saudável, educada, bem resolvida e estruturada.

Ou:

2. Na história, a igreja se tornará em uma organização sem filiados e um espaço físico sem presença humana. Afinal, quem de nós poderia corresponder a tais expectativas?

UMA BOA NOTÍCIA

Paulo continua a escrever no versículo 11: “E é o que alguns têm sido, mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.”

Neste texto salta aos olhos a afirmação: É o que tem sido alguns de vocês. Paulo escrevendo a esta igreja faz referência a determinados erros que desqualificam pessoas para entrarem no reino de Deus, mas afirma que alguns daqueles que estão assentados nos bancos da igreja de Corinto são ex-perversos, ex-imorais, ex-idólatras, ex-homossexuais, ex-ladrões, ex-avarentos, ex-alcoólatras, ex-caluniadores e ex-trapaceiros. Você já imaginou estar sentado aos domingos no meio de uma turma com este currículo? Já pensou no seu filho crescendo entre eles? Já pensou em ter como um amigo que te visita regularmente em sua casa alguém deste time?

Bem, tenho três notícias que podem te chocar ainda mais:

1. A primeira é quando você está assentado em um banco da igreja você está sentado no meio de um monte de “ex” alguma coisa.

2. A segunda é que eu e você fazemos parte dos “ex” alguma coisa. Nós não gostamos de sermos confrontados com o nosso passado, mas cada um de nós, em sua própria fraqueza, carrega uma destas marcas de “ex”... O que nos qualifica para estarmos sentados em um banco de igreja, certamente não é o nosso currículo anterior. Quem pensa ao contrário não compreendeu ainda a essência do evangelho de Deus.

3. A terceira, e talvez a mais chocante e complicada, é que alguns daqueles que estão sentados culto após culto nos bancos das igrejas não são tão “ex” como deveriam ou parecem ser. Outros até são, mas vivem tendo recaídas. Eles ouvem, compreendem e acolhem o Evangelho de Deus, sendo tocados pelo seu amor. Contudo, variadas circunstâncias os levam a tropeçarem nos mesmos erros do passado, ou serem surpreendidos com novas tendências a erros do presente.

Nós temos muita dificuldade de reconhecer que a matéria prima utilizada por Deus para formar o que chamamos de igreja não consiste no que existe de melhor no mundo em termos de santidade, justiça, moralidade, entre outras virtudes. Ao estabelecer que o padrão de aceitação para pertencer a igreja seria a graça, Deus transforma a igreja numa comunidade de gente que traz profundas marcas em seu passado, grandes lutas no presente e a esperança de uma grande redenção de suas vidas e histórias no futuro. No entanto, esta esperança não faz delas gente acabada, mas ainda em obras.

Quem era o grupo de Jesus? Mateus um publicano. Pertencente a uma classe odiada pelos judeus, estavam totalmente envolvidos em esquemas de corrupção no poder público de seu tempo. Simão, o zelote, pertencia a um grupo de revolucionários armados, envolvidos em ataques terroristas em um esquema de rebelião nacionalista. E Pedro, o pescador? Homem simples, mas impetuoso, ora declarava amor por Jesus até a morte, ora negava conhece-lo até mesmo questionado numa roda de estranhos.

Esta é a matéria prima que Deus está usando, ao longo da história, para formar o seu povo e sua igreja. Gente limitada, imperfeita e falha. Por isso, ao lermos as histórias de suas vidas, o que nos salta aos olhos não é quão virtuosos eles eram. Mas quanto Deus foi gracioso para com eles. Da mesma forma será com nossas vidas. Ao contemplar as nossas histórias a partir da eternidade, seremos levados a louvar não nossas virtudes, mas o Deus gracioso que nos alcançou.

Na construção das afirmações no versículo 11, Paulo se utiliza de 3 verbos com 3 adjetivos diferentes: “mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.”
Somos lavados, santificados e justificados por um ato gracioso de Deus. É Deus que faz.

O Livro de Apocalipse no capítulo 7 descreve uma cena fantástica. Fala sobre uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, que se encontram diante do trono de Deus. Todos vestem linho fino e branco. É aqui que João faz uma grande revelação! Aqueles que estão ali não compraram as suas vestes com as suas próprias vidas, nem as alvejaram com os seus próprios esforços. Elas foram compradas e alvejadas pelo sangue de Jesus derramado na Cruz!!!

No nosso passado pode até existir marcas de erros e deslizes ocorridos. Estas marcas nos relembram desde os nossos erros mais tolos até os mais grotescos. No entanto, quando nos aproximamos de Deus, crendo no que Ele fez por nós na Cruz, somos lavados completamente. Aos olhos de Deus não importa as lembranças que as pessoas ainda tenham do nosso passado, estamos limpos, completamente limpos!!

PARA PENSAR

Uma igreja local, nada mais é do que uma comunidade de pessoas ainda marcadas em suas lembranças pelos erros do passado, mas lavadas, santificadas e justificadas pelo sangue de Jesus no presente. Na medida em que constantemente estas pessoas são lembradas do amor de Deus por elas, passam a buscar o projeto de Deus para as suas vidas. No entanto elas ainda estão sujeitas aos deslizes, o que delas gente limitada e imperfeita.

Essa compreensão deve gerar em nós uma maior humildade na visão que temos de nós mesmos. Quando perdemos essa compreensão da realidade, passamos a esperar da igreja, e das pessoas que a formam, muito mais do que elas podem dar. No entanto, não atentamos para o fato de que isso revela que não apenas nossa expectativa acerca da igreja local está disfuncional, mas também a própria visão que temos de nós mesmos.

Na verdade, lá no fundo, estamos dizendo que somos bons demais para estarmos em uma igreja imperfeita. Passamos então a formular uma lista de decepções que tivemos para justificar nosso não envolvimento com uma comunidade cristã. Apenas esquecemos de ponderar na lista as contradições e os erros que marcam as nossos próprias vidas.
Larry Crabb afirma que só há duas coisas capazes de transformar o ser humano: a queda e a graça. A queda já fez a sua parte, fazendo com que homens e mulheres criados a imagem e semelhança de Deus tornassem pessoas egoístas e hedonistas em busca do seu próprio prazer e sua própria felicidade.

As leis podem conter esse egoísmo humano em níveis suportáveis socialmente. No entanto, as leis não conseguem transformar a disfunção gerada pelo pecado (queda) nos seres humanos. As leis podem até, com as suas punições, conter alguma coisa da maldade humana. Por isso que quando não há punição os níveis de crueldade alcançam patamares insuportáveis.

Porém, a graça de Deus oferecida na morte e ressurreição de Cristo Jesus, não gera uma simples barreiras para conter as disfunções dos seres humanos. A graça de Deus gera transformação de dentro para fora. Na medida em que uma pessoa compreende e acolhe a graça de Deus ela é gradativamente movida na direção da transformação de seus valores e do redimensionamento de sua estrutura de vida.

Devido a isso, acredito que uma igreja local comprometida com o evangelho de Jesus, não pode simplesmente viver na aplicação da lei. A igreja deve ser reconhecida como uma comunidade que conhece e vive intensamente a graça de Deus. Pessoas marcadas pelo passado devem experimentar em seu ambiente a oportunidade de serem lavadas, santificadas e justificadas por Deus.

Ao reconhecermos que a igreja é uma comunidade formada por pessoas falhas e que devem ser constantemente alvos da graça de Deus, não nos isenta da responsabilidade de zelarmos e encorajarmos uns aos outros e buscarmos a novidade de vida que nos é oferecida por Deus em todas as dimensões de nossa vida.

Nas epístolas paulinas encontramos, freqüentemente, orientações para que a igreja exista aconselhamento, encorajamento, repreensão mútua para nunca perdermos o foco do que Deus está fazendo em nós “novas todas as coisas”. Contudo, todas estas questões devem ser feitas com verdade e amor.

Fechar os olhos para as opções erradas que um irmão ou irmã da igreja está fazendo em sua vida não ;e um ato de graça, mas de descaso e irresponsabilidade. Como disse Philip Yancei, “Deus nos ama o bastante para nos aceitar como somos, mas nos ama demais para permitir que continuemos os mesmos”. Uma igreja comprometida com a obra de Deus na vida dos que a ela se achegam, deve também ser uma igreja que ama o bastante para acolher as pessoas da forma em que estão, mas que ama demais para permitir que continuem se machucando se ferindo ao longo da vida.

Isso é a Igreja de Deus. Desta igreja eu sou um entusiasta!!!!

Soli Cristhus!!!

Eduardo Leandro Alves

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

EU FUI GOSPEL!




Ainda me lembro do final dos anos 80 e início dos anos 90. Não sei se todos na minha idade, pouco mais de 30 anos, tem a mesma impressão que tenho hoje. A ditadura estava acabando, logo, a minha geração não sabe o significado na prática de termos como “AI5”, “golpe de 64”, “exilados políticos”, etc. Para mim são apenas assuntos históricos. Obviamente relevantes para o país, mas eu não vivi isso.

Vi pela televisão a constituinte de 1988. Vi, também pela televisão os grande comícios para as “Diretas Já”. Vi o Tancredo sendo escolhido, mas o Sarnei sendo empossado. Vivi o frenesi com a eleição e depois derrubada do Collor. Lembro-me bem do ano de 94, ano do Penta Campeonato de Futebol que o Brasil conquistou nos EUA. Nessa época cursava o final do antigo segundo grau no Colégio Estadual Nazira Salomão. Um dia ia sair um ônibus de estudantes para a cidade do Rio de Janeiro para participarem de uma passeata dos “caras pintadas”. Um colega me chamou para ir. Eu perguntei: "Porque você vai"? Ele disse: "Pô! Vai ser muito manero! Vamos lá agitar! A galera toda vai." Resolvi não ir. Hoje penso que foi melhor. Sem querer defender o Collor, PC Farias e companhia, nos últimos meses surgiram escândalos e roubalheiras bem piores... A diferença é que os que estão no poder hoje, antes estavam incitando as massas nas ruas...

Pois é, como vivia em uma cidade do interior, às vezes algumas coisas da vida eram uma espécie de "eco" do que ocorria nas grandes capitais. No meio evangélico era da mesma forma. Era a época do “movimento gospel”.

Comecei a tocar bateria um pouco tarde na idade, tinha uns 12 anos. Na minha casa não tem nenhum músico. Com exceção da minha irmã e da minha mãe, todos somos desafinados. Mas eu queria tocar. Em parte devido a influência de um primo que tocava vários tipos de instrumentos musicais e ainda tocava em uma banda evangélica o "Nova Geração" (parece nome de banda de pagode, mas era uma banda que fazia um estilo pop-rock). Comecei a tocar na igreja. Eu era horrível! Ainda me lembro do meu Pastor parando os hinos no meio e mandando-me parar... que vergonha!

O tempo passou e eu melhorei. Nunca fui o melhor. Embora houvesse uma disputa silenciosa entre os bateristas evangélicos da cidade, eu não passava vergonha nos “shows”.

Fui um dos primeiros da minha cidade a assistir a grande seventos gospel. Fui várias vezes a São Paulo para assistir aos S.O.S da Vida promovidos pela Renascer (Pacaembu, ginásio da Portuguesa, Sambódromo) e também em cultos na Avenida Lins de Vasconcelos, tudo em São Paulo. No Rio também fui ao Maracanã e Apoteose. Vi o Bride, Petra, Guardian, White Cross, Michael W. Smith, entre outros.

Em Angra dos Reis fizemos vários shows na rua, em clubes, praças... Foi uma época bastante agitada... Agora, imagina, eu era membro da Assembléia de Deus e estava envolvido na maioria dos “shows evangélicos” da cidade. Abri até uma loja, a “Gospel Music”, que vendia Disco de Vinil e artigos de divulgação do movimento gospel. Imagina só! Era muita doideira... Uma vez um irmão entrou na loja e eu fui oferecer para ele um disco do Resgate com o título: “Vida, Jesus e Rock`N´Roll”. Ele clamou o sangue e foi embora!

Pois é, o tempo passou, e com ela a adolescência. Tive muitos problemas na minha adolescência, especialmente na parte final. Muitos deles porque eu queria me encontrar. No fundo de tudo o que eu fazia, o maior desejo era agradar a Deus. Embora tenha certeza que na maioria das vezes isso não aconteceu. Mas tentei. Eu admirava aqueles cantores de bandas... Ainda me lembro quando a minha banda abriu um show para o Brother Simion (vocalista do Katsbarnéa), ele era o ícone da época gospel. Ainda dormiu na sala da minha casa! Puxa! Para um garoto, isso foi uma onda e tanto!

Na época fomos mal compreendidos pelos pastores. Como meninos, só estávamos tentando louvar a Deus de uma forma que conhecíamos. Esse era o discurso: "Vamos levar Jesus aos lugares onde a linguagem tradicional da igreja não consegue chegar".

Haviam muitas pessoas sinceras, bem intencionadas, mas também haviam os exploradores. Logo estávamos servindo de palanque eleitoral, bucha de canhão. O ideal de levar Jesus foi sendo substituído pela fama, pela disputa, pela ganância. Os shows foram ficando cada vez mais shows. A diferença com o mundo foi diminuindo cada vez mais. Ingressos eram cobrados, cachês pagos (cada vez mais caros), exigências cada vez mais parecidas com artistas do mundo... Em pouco tempo as apresentações começaram a ser conjuntas, ou seja, bandas não evangélicas começaram a se apresentar com bandas evangélicas... A coisa foi se complicando cada vez mais...

O tempo passou, amadurecemos, casei, tornei-me pastor pela bondade de Deus. A bateria ficou para trás. Mas o ideal de querer servir a Deus em verdade e sinceridade, só fez aumentar. Hoje não sou mais gospel. Na verdade, nem gosto mais do termo. A leitura que faço do movimento é que ele se perdeu no caminho. Hoje quero apenas ser servo do Senhor.

O que escrevi é apenas uma história, ecos da minha lembrança, tudo ficou no passado, mas deixou lições muito importantes, como por exemplo: Não podemos criticar o que não conhecemos e nem julgar uma pessoa por uma única situação; não podemos perder o foco de ter Deus em primeiro lugar; sempre buscarmos a moderação. Além de ter a certeza que um dia, o adolescente vira homem (adulto). E a história segue o seu rumo.