sábado, 12 de maio de 2012

Religião e Mercado



Pensando de forma simplista sobre algumas situações atuais em relação a fé dá para começar a ficar preocupado. Por exemplo, quando um Padre se torna símbolo sexual, realizando shows, usando calças de couro, faz musculação, camisas apertadas e as mulheres gritam: “gostosão”!  Quando alguns Pastores mais parecem empresários bem sucedidos que administram as igrejas aplicando princípios do “mercado” oferecendo um produto a ser consumido pelas massas. Onde missas católicas são em ritmos de aeróbicas, cultos evangélicos são feitos para entreter os frequentadores e o local arquitetonicamente projetado para a satisfação pessoal e mensagens milimetricamente preparadas para massagear o ego, mas não acusar o pecado, com certeza temos um grande problema.
Não sou necessariamente contra a realização de shows. Mas eles devem ser colocados no seu devido lugar, serem entendidos como isso: apenas como um show, um entretenimento que necessariamente não é errado ou pecaminoso. Mas o fato é que não questionam nada, nem promovem nenhuma mudança real na igreja, por isso não devem ser confundidos com o que, historicamente chamamos de culto de adoração a Deus que produz quebrantamento, arrependimento. Onde a santidade de Deus é contrastada com a nossa pecaminosidade. Pois em meio a tudo isso o evangelho e a evangelização são outra coisa. Porém, parece que já não é mais prioridade. A prioridade é a renovação do sentimento religioso, a redescoberta do prestígio sobrenatural do líder e do prestígio social da igreja, como já foi defendido por um famoso teólogo de nosso tempo.

Em muitos aspectos o evangelho entra em conflito, ou até mesmo em contradição com essa realidade que, para muitos, vai se tornando natural. Muitas das lideranças cristãs, no afã de verem as massas lhes seguindo acabam por adaptar a mensagem às demandas desse “mercado religioso”, com isso anunciam o que as pessoas querem ouvir. Nesse caso ocorre uma subordinação da Missão da Igreja à demanda dos consumidores religiosos.

O problema é que esse modelo se esgota com o tempo. Ao tratar os membros como sócios, ou clientes, logo eles exigirão direitos de consumidores, consumidores religiosos. Levando, por parte dos líderes a um ciclo permanente de inovações, assim como o mercado da tecnologia, onde um celular envelhece em seis meses. Hinos que duram um verão, pregadores que duram uma temporada, verdadeiras estrelas cadentes. Esse sistema gera pessoas que vão à busca das “promoções do mercado religioso” migrando sempre que surge uma “boa promoção”. Pastores que caem nessa armadilha, dificilmente serão lembrados pela próxima geração. Isto é, caso venha a existir uma outra geração para os que seguiram esse caminho de subordinação da Missão da Igreja ao markenting de mercado.
Essa subordinação pode ser entendida como a vitória da lógica do marketing sobre a lógica religiosa ou profética. Na lógica do markenting empresa (ou igreja) procura, em primeiro lugar saber quais são os desejos dos consumidores e a partir disso elabora os seus produtos (bens físicos, simbólicos ou discursos), para atender esses desejos. Enquanto que na lógica profética procura-se conhecer primeiro a vontade de Deus, ou a verdade a ser alcançada através de uma iluminação e depois se anuncia essa verdade mesmo que ela entre em conflito como desejo da maioria da população. Os profetas sempre denunciam o que há de errado na sociedade, nas instituições religiosas e na vida das pessoas e anunciam a esperança de um novo porvir, de uma alternativa possível. Talvez por isso, que, via de regra, os profetas aos olhos humanos “sempre se deram mal”. Elias foi ameaçado de morte, assim como Eliseu, Jeremias foi preso, Daniel traído... a lista seria longa se fossemos tratar de todos, inclusive os discípulos que sofreram martírio, os cristãos primitivos da igreja, etc.

Encerro parafraseando Eugene Peterson: Aplauso estatístico não tem nada a ver com fidelidade. Uma imagem pública brilhante não tem nada a ver com obediência. A Palavra Bíblica “obedecer é melhor do que sacrificar” (1Sm 15.22) é uma proclamação magnífica e clara do tema que mais tarde é retomado e muito bem pregado por Isaías (1.11-15), Amós (5.21-27) e Oséias (6.6). Deus continua a separar os que manipulam a comunidade da fé para servir a si mesmos do que sevem ao Senhor da Igreja.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Não Será Assim Entre Vós






 E aproximaram-se dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos.E ele lhes disse: Que quereis que vos faça?E eles lhe disseram: Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda.Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas;Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. (Mc 10.35-37,42-45).

            Sempre que estou em um velório, ou fazendo a cerimônia fúnebre, nunca sei muito bem o que dizer, muitos pensamentos me veem à mente. Um deles é que todos nós somos finitos. Diante da morte percebemos a nossa pequenez, lembramos que somos pó e para o pó voltaremos. Toda e qualquer presunção de força ou superioridade se perde diante da morte.
            Salomão, o sábio, disse que preferia estar em uma casa onde há luto do que em uma casa onde há festa. A festa nos faz ter uma falsa ideia de normalidade, as festas por vitórias que alcançamos, pode nos fazer ter a ideia de sermos super-homens. Porém, onde há luto, nos faz refletir, pensar na vida.
            O texto de Marcos 10.35-37,42-45, nos mostra dois seguidores de Jesus pedindo uma posição de destaque ao lado dEle. O que eles queriam era ter proeminência sobre os demais discípulos. Eles queriam posição, status. Jesus responde a eles dizendo que no Reino de Deus a coisa funciona diferente. Jesus quer mostrar-lhes que no Reino não há lugar para prepotência, orgulho ou soberba. Ou seja, o Reino de Deus não é como o reino do mundo.
            Na edição do dia 23 de junho de 2007 a revista Veja fez uma reportagem sobre as intrigas que há entre alguns ministros do governo Lula. Como a própria reportagem conclui, são intrigas com o único objetivo de obter mais poder. É uma leitura dos bastidores do poder na República do Brasil. É assim no reino dos homens. Mas não deve ser assim entre os súditos do Reino de Deus.
Com lágrimas nos olhos constato que, em muitos meios eclesiásticos, são essas atitudes que estamos vendo. Conchavos políticos para conseguir cargos na administração, mentiras, invejas, influência do poder econômico de alguns para se sobrepor, busca do poder pelo poder. Talvez, hoje, mas do que nunca, vale a pena lembrar-se das palavras de Jesus; “NÃO SERÁ ASSIM ENTRE VÓS”.
No Reino de Jesus, só há lugar para quem tem sentimento de servo. O que Ele quer de nós é que tenhamos o mesmo sentimento que Ele teve (Fl 2.5-8), o sentimento de servo. Para os que entram na corrida por posição e triunfo, não há vencedores, é uma corrida perversa que no fim esmagará a nossa alma. Há uma citação do livro “Sete Hábitos das Pessoas Muito Eficazes”, escrito por Stephen R. Covey, que nos traz ensinamentos brilhantes:
            “Quando olho para as tumbas dos grandes homens, qualquer resquício de sentimento de inveja morre dentro de mim; quando leio os epitáfios dos magníficos, todos os desejos desordenados desaparecem; quando me deparo com o sofrimento dos pais em um túmulo, meu coração se desmancha de compaixão; quando vejo a tumba dos próprios pais, lembro-me de como é vão chorarmos por aqueles que logo seguiremos; quando vejo reis colocados ao lado daqueles que os depuseram, quando medito sobre os espíritos antagônicos enterrados lado a lado, ou os homens sagrados que dividiram o mundo com suas discussões e contendas, medito cheio de dor e surpresa, sobre a pequenez das disputas, facções e debates da humanidade. Quando leio as variadas datas dos túmulos, algumas recentes, outras de seiscentos anos atrás, penso no grande Dia, no qual seremos todos contemporâneos, e faremos nossa aparição conjunta”.
            A sedução do aplauso é vã. As disputas e invejas nos igualam aos homens maus. O Reino de Deus é diferente, o maior é o menor; a matemática de Deus é diferente, Ele deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma; revira toda uma casa arrumada para encontrar uma simples drácma perdida. Os valores do Reino são superiores, não podemos trocá-los pela moda do dia.
            Houve um homem na história, filho de um bom pai, educado nos princípios religiosos que seus pais haviam recebido de Deus, mas que não conseguiu compreender os princípios o Reino de Deus. A história não o perdoou. Esse homem é Esaú. A história acusa Esaú de trocar a benção futura por um prazer imediato (Hb 12.16), dando a ele um adjetivo: profano.
            Não quero ser lembrado como profano e inescrupuloso. Daqui a muitos anos escreverão a nossa história e a pergunta é: Como seremos lembrados? O meu desejo é que, quando falarem da nossa geração, possam falar de pessoas que viviam sob as leis do Reino; pessoas que entenderam a orientação de Cristo: “NÃO SERÁ ASSIM ENTRE VÓS”.





segunda-feira, 30 de abril de 2012

OS SÍMBOLOS DA MISSÃO




Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo (Jo 17.18)


Penso que a oração sacerdotal é um tipo de relatório de final de ministério. Jesus cumpriu tudo o que estava no plano de Deus. Jesus guardou todos que foram confiados a ele, inclusive Judas. Se você ler o texto da última ceia, verá que Jesus disse que o traidor é o que molha o pão na sopa, “o que mete comigo a mão no prato” (Mt 26.23). O contexto cultural nos diz que só os amigos faziam isso. Quando Jesus diz isso, penso que ele estava dizendo: “Eu sei que você vai me trair, mas o meu prato continua aqui”. A atitude de traição de Judas não mudava o fato de quem era Jesus, ou seja, as atitudes dos outros não pode mudar quem você é. Judas, por sua vontade, escolheu o seu caminho. Um dos símbolos da missão é a identidade de quem é Jesus.

Nesta oração/relatório Jesus fala da vocação da Igreja, que é enviada assim como ele foi enviado. Nessa caminhada ministerial de Jesus, nosso modelo quero destacar de forma bem simples mais alguns símbolos da missão, ou da vocação:

Quero destacar a manjedoura.  Manjedoura fala de simplicidade que é o oposto à opulência, a ostentação, pois o ministério não vive apenas de situações fantásticas. Deus pode fazer coisas fantásticas, mas também existem dias de calmaria, e, aos olhos humanos até de insignificância. Mas assim é o mistério do Reino, uma pedra preciosa escondida em um terreno que ninguém quer (Mt 13.44), uma semente insignificante, mas que ao crescer torna-se a maior árvore da plantação (Mt 13.32).

Destaco ainda o deserto, que ao meu ver significa a busca de si mesmo. No deserto Moisés perguntou: quem sou eu, Senhor? A imagem que Moisés tinha de liderança era a de Faraó, imagem de pompa, grandeza. No deserto nós nos despojamos de tudo para nos encontrarmos com Deus. No ministério de Jesus, ele passa no deserto para demonstrar que a glória é de Deus. Em determinado momento do Ministério de Jesus, uma mãe quer buscar um lugar melhor para os seus filhos na eternidade, a visão humana de posição e destaque. Jesus reorganiza a mente daquela mãe mostrando que os princípios do Reino de Deus são proporcionalmente inversos aos princípios do reino dos homens: “na eternidade é maior quem é menor, é líder, quem serve, quem obedece” (Mt 20.20-28;Mc 10.35-45; Lc 22.24-26). Só Deus pode ser reconhecido Rei em cima de um jumento, ou pregado na cruz.

Sendo assim, Missão é o Calvário. Deus enviou Jesus ao Calvário onde ele nos redimiu. Jesus nos enviou ao mundo para anunciar esse perdão. Ou seja, a Cruz é o grande palco da atuação de Deus, o Getsêmani, o Calvário.
Isso nos leva a algumas questões.

1)      A que missão somos chamados a obedecer? A fazer discípulos. A vida do discípulo é marcada por felicidade subjetiva [ter coisas é alegria subjetiva] questões espirituais, isso é felicidade na vida. Seguir a Jesus nos torna feliz, o restante é consequência.
2)      O discípulo trata dos seus olhos. Jesus diz que os olhos são a luz do corpo.
A tendência do mundo é cobiçar o próximo com seus olhos. A tendência do muçulmano fundamentalista é cobrir a mulher totalmente. O discípulo, cobre seu olho.
3)      O discípulo celebra a vida. Paulo preso escreve aos filipenses: regozijai-vos no Senhor.

Dentro dos símbolos da missão de Jesus, percebemos que a formação dos seus discípulos só foi possível porque ele andou com eles. Quando foram prender Jesus precisou beija-lo para que o identificasse tal era a semelhança dele com os demais. Somos enviados no modelo de Jesus: Assim como o pai me enviou eu também vos envio (Jo 20.21).

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O DEUS DA ESPERANÇA



Ora, o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo (Rm 15.13).

Deus tem muitos atributos na Bíblia, por exemplo: “Deus da paz” (1Ts 5.23); “Deus único e sábio” (Rm 16.27) “Deus de toda a consolação” (2Co 1.3); “Deus fiel” (2Co 1.18), Deus da esperança (Rm 15.3), etc. Agora, o que isto significa para nós, que servimos a um Deus tão grande e maravilhoso? É sobre isso que quero falar um pouco neste pequeno texto.
Uma das coisas que vejo é que o Deus da esperança nos enche de todo o gozo. Vivemos em tempos angustiosos onde o coração do homem a cada dia que passa parece mais vazio. O homem atual vive uma vida sem princípios, sem amor, muitos sem perspectivas. Assim como há no mundo uma multidão de pessoas de estômagos vazios, também há uma multidão de almas vazias.
            O nosso texto nos afirma que o Deus da esperança nos enche de todo o gozo, perceba que Deus não nos enche de gozo, mas de todo o gozo (Jo 15.11;17.13). Deus, segundo as suas muitas misericórdias, quer encher a nossa vida da alegria do perdão, da salvação, e da plenitude do Espírito Santo. É uma maravilha sermos cheios do gozo de Deus.
            O nosso Deus também nos enche de paz. As nações estão buscando paz. Diariamente, ouvimos notícias de atentados terroristas, guerra civil, guerrilha urbana, balas perdidas, assalto, etc. Inúmeros esforços vêm sendo empreendidos em busca da tão sonhada paz. Agora, onde está a paz? Como podemos encontra-la? A Bíblia me diz que a paz verdadeira está em Jesus Cristo, o filho de Deus (2Ts 3.16; Jo 14.27; Is 9.6). A humanidade precisa entender que o homem por si só encontrará apenas destruição. O sonho da paz feita pelos homens é apenas isso: um sonho. Mas quando Jesus passa a morar na vida de um indivíduo, passa a controla-la, aí sim, a paz começa a reinar. Há paz na individualidade, na família, no trabalho, entre os amigos. Por que? Pelo fato que Jesus é o príncipe da paz!
            O Deus da esperança nos enriquece de esperança no poder do Espírito Santo. A maior riqueza para uma pessoa é quando ela é cheia do poder do Espírito Santo. Quando as coisas acontecem no poder do Espírito, elas possuem outro sabor, são diferentes, são frutos de milagres.
            Deus quer que sejamos ricos na esperança e o triste é saber que há tantas pessoas que já perderam a esperança. É certo que às vezes, olhando ao nosso derredor, as coisas não parecem muito boas. Contudo, devemos ter a certeza que Deus nos enriquece de esperança no poder do Espírito Santo.
            O Apóstolo João (Jo 5.1-18) nos conta a história de um homem para quem talvez não houvesse mais esperança, trinta e oito anos abandonado e enfermo no tanque de Betesda. Um dia, Jesus chegou até ele e tudo mudou, a esperança voltou.
            Amado leitor, Jesus Cristo é a própria esperança. Por isso estamos aqui, por isso pregamos, evangelizamos, enviamos missionários, comunicamos as Boas Novas, falamos da esperança, Jesus Cristo, para um mundo sem esperança. Esta é a nossa missão.

quinta-feira, 29 de março de 2012

JESUS A ÁGUA DA VIDA



E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. (João 7.37-38)

A Festa dos Tabernáculos era a maior e mais sagrada festa para os judeus. Um acontecimento popular alegre, com música, canto e dança. Durava sete dias e celebrava a saída do povo do Egito e sua peregrinação no deserto, onde a água era escassa. A festa ocorria depois da colheita. Devido a isso, com o passar dos anos, acrescentou-se a celebração pela colheita ao significado da festa. Embora não fossem mais peregrinos e tinham água para as plantações, não a tinham em abundância. Os tabernáculos ou pequenas choupanas que construíam para a festa ao redor do Templo representavam as tendas em que viveram durante a peregrinação no deserto, bem como o local onde o povo celebrava a colheita depois do trabalho, antes de existir o Templo. Mesmo na terra de Canaã havia tempos de seca; assim, a água sempre teve um significado vital para a sobrevivência de Israel.

Na Festa havia um ritual em torno da água. Era um ritual de agradecimento pela água e, ao mesmo tempo, um pedido por chuvas abundantes para garantir a vida. Ambos, possivelmente, equivaliam ao pedido pela salvação. Eles não conheciam uma fonte de água que jorrasse sem parar, sem deixá-los em situação precária frente à perda da colheita e à falta de água no geral. Ou seja, toda a cerimônia lembrava os tempos difíceis de escassez de água, as secas, as plantações destruídas e, consequentemente, a fome. A festa celebrava experiências antigas permeadas de tradição religiosa, lembrando a forma que Deus abençoava o seu povo.

Nos dias da Festa a cada manhã, os sacerdotes buscavam água na fonte de Siloé, num recipiente de ouro, e com a multidão levavam ao altar, derramando-a em duas bacias de ouro. Isso também acontecia no ápice da festa de uma forma mais grandiosa, no último dia. Para eles, a água simbolizava a abundância nos tempos escatológicos.

Neste exato momento, no dia mais importante, no ritual mais importante, Jesus se coloca de pé e diz: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, do seu interior fluirão rios de água viva”. Você pode imaginar o impacto que causou as palavras de Jesus? Como se atreve? Tirar a abundância de água do momento escatológico e dizer que, já agora, nele há como saciar a sede? No dia mais importante da festa ele aparece, sai do anonimato, expondo-se à raiva dos que o observam e querem eliminá-lo.

Ele afirma que nem o ritual da água, tampouco o vinho ali bebido matam a sede. Só Ele é quem substitui essa água, e ela está disponível para quem crer nele e em sua proposta. Que não é apenas lá no futuro, mas agora, se crerem haverá abundância.

Jesus, ao se utilizar da água como comparativo ao seu ministério e vida, está dizendo que assim como a água é fundamental para a sobrevivência, muito mais, para que aja vida, Ele é fundamental para que a humanidade possua vida. A vida que Jesus oferece, não é uma coisa qualquer, é vida abundante, é transformadora. Quem beber desta água nunca mais terá sede, como Ele explicaria depois a mulher samaritana. Ou seja, suas necessidades são saciadas, tanto físicas e materiais quanto espirituais. Aqui cabe uma palavra, podemos não ter tudo o que queremos, mas temos tudo o que precisamos.

O “beber” da Água viva (Jesus) gera em nós uma nova vida, novas perspectivas. Trás de volta a comunhão perdida no Éden pelo ato de desobediência do homem. Jesus proporciona relacionamento direto com o Pai, o que os rituais da Festa, muito bonitos, mas por si só não produziam transformação. Aliás, o Deus da Bíblia, o nosso Deus, é o único que é pessoal. Em nenhuma literatura religiosa de nenhuma religião do mundo você encontrará um Deus pessoal e relacional.

O milagre da saciedade da sede da alma gera comunhão com o Pai e faz surgir uma fonte que jorra para a vida eterna, produz mudança comportamental. Aqui está a questão: ao mesmo tempo em que esta Água é espiritual nos dando condições de nos relacionarmos com o Pai, gerando em nós consciência espiritual, também consciência social.

Ao iniciar esse texto disse que Jesus relacionou muitas questões de seu ministério e vida com a criação. Não é panteísmo (Deus é todas as coisas) nem pananteísmo (ele não é, mas está em todas as coisas), mas o fato é que Deus criou todas as coisas e disse que eram boas e colocou o homem para cuidar da Sua boa criação, mas o pecado da desobediência gerou no homem não a capacidade de cuidar, mas de destruir a criação de Deus. Por isso Paulo diz que “toda a criação geme e chora aguardando o dia da sua libertação” (Rm 8.22).

Como novas criaturas, como filhos amados de Deus restaurados pela fé, temos a obrigação de cumprir o mandato cultural de cuidar da boa criação de Deus (Gn 2.15), e isso inclui a água, sem a qual não há vida nesse planeta. Como cristãos, resgatados e cooperadores de Deus, não podemos ser causadores da destruição da boa criação de Deus. Como podemos poluir os rios, mares, nascentes? Você consegue imaginar Jesus andando entre nós e destruindo a sua própria criação? Se ele se comparou a água, com certeza é porque essa água é boa.

Escrevo esse artigo, para lhe falar da Salvação e das responsabilidades associadas a ela, Salvação esta que será concretizada de forma plena no arrebatamento da Igreja, que gera em nós uma consciência espiritual, mas que não pode amortecer a nossa consciência social, nos deixando presos a rituais, como foi o caso dos judeus em relação a Festa dos Tabernáculos, onde a salvação escatológica é representada pelo ritual. Vivemos neste planeta, esperando sim a completa libertação, onde o que é “mortal será absorvido pela vida” (2Co 5.1-8), enquanto este dia não chegar você é responsável por cuidar da Boa Criação de Deus (Jr 29.7).

domingo, 18 de março de 2012

UMA VIDA DE BÊNÇÃO



Feliz aquele que teme a Deus, o SENHOR, e vive de acordo com a sua vontade! Salmo 128.1

A bênção da vida cristã está em perceber que é “mais abençoado dar do que receber”. Ao se aprender a dar e a compartilhar, a vitalidade aumenta e as pessoas ao nosso redor se tornam “vinhas frutíferas” e “ramos de oliveira” em volta de nossas mesas, como nos ensina o salmo 128.

Assim, as bênçãos que são prometidas, concedidas e experimentadas pelos cristãos, não excluem, obviamente, as dificuldades. A Bíblia nunca negou a realidade das lutas da vida diária. As dificuldades, no entanto, não são inerentes a fé, elas vêm de fora em forma de tentações, seduções, pressões. Como nos diz Eugene Peterson, “não se passa um único dia sequer sem que tenhamos que encarar a antiga e tripla ameaça que os cristãos da Idade Média resumiram como sendo o mundo, a carne e o diabo: o mundo – a sociedade da humanidade orgulhosa e arrogante que desafia e tenta eliminar o domínio e a presença de Deus na história; a carne – a corrupção que o pecado introduziu em nossos apetites e instintos; e o diabo – a vontade maligna que nos seduze nos tenta a mantermos a distancia da vontade de Deus”. Temos de lutar contra tudo isso, pois estamos em batalha. Há uma luta de fé a ser travada todos os dias.

No entanto o caminho da fé está harmonizado com o que Deus tem feito e está fazendo. A estrada na qual estamos viajando é a velha estrada do discipulado cristão. Isso quer dizer que não é um caminho do tédio, do desespero ou da confusão (seja ela de qual ordem for). Não é um caminho de busca miserável, mas um caminho de bênção.

Dentro dessa perspectiva deve-se acreditar que não há truques envolvidos no compromisso com essa vida de bênçãos, e a sorte não é exigida. Não é um caminho para “mandrakes”. Nós simplesmente nos tornamos cristãos e começamos a vida de fé. Reconhecemos Deus como nosso criador e nosso amante, e aceitamos a Cristo como o meio pelo qual podemos manter um relacionamento vivo com Deus. Aceitamos a verdade anunciada e proclamada que Deus está no centro de nossa existência, descobrimos, então, como ele construiu esse mundo (a sua criação), como ele tem suprido a nossa redenção e prosseguido nesse caminho. Nas simples, porém maravilhosas palavras do salmo 128: “Bendito é aquele que teme ao Senhor, que anda em seus caminhos”!

quinta-feira, 15 de março de 2012

UM PROBLEMA DE GANÂNCIA



Salmo 128.2: “Do trabalho de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem”.

João Calvino, certa vez pregando aos membros da igreja sob sua responsabilidade em Genebra, Suiça, ressaltou aos seus ouvintes que deveriam desenvolver melhor e mais profundamente conceitos de felicidade em relação àqueles sustentados pelo mundo, que fazem com que uma vida feliz consista de tranquilidade, honras e grande riqueza.

Penso que o Salmo 128 nos ajuda a fazer isso. Uma simples análise sobre o mundo atual demonstra que grande parte da felicidade de alguns depende da miséria de outros que sustentam as riquezas de pessoas gananciosas. Para melhorar o padrão de vida, alguém tem que piorar o seu. É interessante ver o “arroxo” que estão impondo a Grécia agora (não que eles não tenham gastado demais) com cortes de salários, corte de pensões, demissões, entre outros. Mas enquanto a ganância dos gregos comprava os carros Mercedes da Alemanha, ou as roupas de grifes italianas, ou custeavam viagens à França e podiam comprar seus champanhes caríssimos, estava tudo bem (e com isso ajudavam a financiar a própria ganância alheia). Era óbvio que um dia a conta iria estourar. Mas a ganância falava mais alto.

Pouco tempo atrás foi produzido um filme que vale a pena ser visto “Wall Street: o dinheiro nunca dorme”. Em um dos momentos do filme o personagem de Michael Douglas diz: “sempre haverá crises econômicas, pois as bolhas financeiras são parte do sistema, que é fruto direto da ganância do ser humano”.

A crise mundial de fome que enfrentamos hoje é resultado direto do método de perseguir a felicidade que se adota. Nações industrializadas querem um padrão de vida cada vez mais alto, enquanto um crescente número de pessoas passa fome. Não há necessidade que seja assim. Especialistas em problema de fome mundial afirmam que há condição de produzir comida para todos. Não há problema de produção, mas de ganância, e aí entra a questão da corrupção que desvia recursos na infraestrutura, na distribuição, entre outros.

O que adianta, por exemplo, um indivíduo possuir uma Ferrari em uma cidade onde não há ruas boas o suficiente para que ele ande com ela? O que adianta morar em uma cobertura de milhões de reais se em volta há uma multidão de miseráveis, se há insegurança? Temos um problema de ganância: “Se eu não conseguir o meu enquanto posso, talvez eu não seja feliz.

As palavras de Jesus não combinam com ganancia. A felicidade segundo Jesus está em buscar as coisas de Deus. Não há uma condenação em possuir bens materiais, mas esses bens não podem nos possuir, nem nos tornar gananciosos e insensíveis ao que ocorre a nossa volta. Sobre a felicidade... vamos escrever mais sobre isso...