segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

APONTAMENTOS SOBRE INTIMIDADES NO NAMORO



INTIMIDADES NO NAMORO
Ec. 9.7-10: Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com coração contente o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras. Em todo o tempo sejam alvas as tuas roupas, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol. Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.

Quero tratar desse assunto em dois níveis: o primeiro mais humano, carnal, no nível de hormônios, no nível do relacionamento com o outro, mas horizontal. O outro nível algo mais espiritual, tendo a consciência de sermos templo do Espírito de Deus, onde Ele habita.

  1. Antes, algumas definições sobre Ética e Moral
DEFINIÇÃO DO TERMO ÉTICA
Como definir ética? Ética é a ciência (estudo/ensino) que se ocupa com a conduta do ser humano, focando especialmente sua responsabilidade pela organização da vida na sociedade (e perante Deus). Dr. Werner Wise, citando Rabusque, define ética como: “ciência normativa do agir humano em vista do seu fim último”[1].

Ética descritiva significa que a tarefa da ética consiste em analisar e descrever a história da conduta do ser humano. Portanto, ética descritiva constata como o ser humano (cristão ou não) se comporta. É evidente que ética não se pode limitar apenas a essa tarefa. Daí a expressão ética normativa.

Ética normativa significa que a tarefa principal da ética é perguntar: como o ser humano deve se comportar? Neste caso está em questão a verdade. Na definição da ética normativa podemos utilizar a seguinte colocação: ela pressupõe a existência da verdade. Neste caso para detectá-la necessita-se de normas ou critérios formulados a partir da verdade. Sendo assim, a ética normativa pressupõe que o ser humano tenha a liberdade para agir desta ou daquela maneira.[2]

Ética e Moral: Sugere-se a união dos dois termos. Os dois estão intimamente ligados. A proposta é: A moral deve ser reservada para nós como o conjunto de códigos ou juízos que pretende regular, de forma reflexiva, as ações concretas das pessoas, seja no que tange ao comportamento individual, social, ou com respeito ao relacionamento com a natureza.
Oferecendo normas com conteúdos concretos, a moral procura responder à questão: QUE DEVO FAZER?

O que eu devo fazer, a moral responde essa pergunta (dar lugar aos mais velhos, etc) tem a ver com os costumes, os hábitos... (o que eu faço com o lixo é uma questão de moralidade)
Algumas questões já são definidas, são escolhas que estão definidas pela escolha social: tomar banho, usar roupas, escovar os dentes.

Algumas regras não estão escritas, mas todos respeitam e se organizam a partir de determinadas convenções, pois, fazem parte delas. Quem transita entre meios diferentes percebe as diferenças, mesmo que de forma sutil.

Ética: Constitui um segundo nível de reflexão, que se volta para os códigos, juízo e as próprias ações morais.

Desencadeando sempre um momento reflexivo (crítico), a pergunta relevante da ética é: POR QUE DEVO FAZER?

Em outras palavras, a ética tem de justificar e fundamentar, mediante a reflexão teórica, filosófica ou teológica (reflexão conceitual e com pretensões de validade universal), e as escolhas morais, isto é, tem de acolher o mundo moral sem sua especificidade e sustentá-lo reflexivamente.

Ética e moralidade vivem em estado cíclico. Quando gera um problema, isso é a crise. A crise é um questionamento ético em relação a prática moral. Seguindo alguns comportamentos e sempre questionando se esses comportamentos estão corretos.

A questão ética me faz responder as seguintes questões: Devo, quero, posso. O dever tem a ver com a questão ética, querer tem a ver com energia pessoal; posso tem a ver com a condição (levar o lixo, etc...).

Ao fazer esses questionamentos, isso me faz ser humano, é a imagem de Deus.

A cada dia as escolhas se tornam mais amplas, mais complexas...

MORALISMO – Está vinculado com uma distorção. Moralismo define, de forma crítica, toda tentativa filosófica ou teológica que se consagra exclusivamente à moral como um princípio fundamental e absoluto de agir.

Exclui de antemão todos os outros aspectos da vida como moralmente irrelevantes. Ou seja, pegar um aspecto da vida e generalizá-lo (e.g., como a pornografia na internet). Se há pornografia na internet, isso não quer dizer que toda a internet não serve. Ou ideias que circulam sem lógica. O moralismo “rompe” com a idéia cíclica entre ética e moral, o livre pensar.

Vivemos toda a vida no nível da moralidade. Às vezes questiono, mas se questionar sempre, ficamos louco... 90% da vida é no piloto automático...

A realidade é muito dura para se ficar todo o momento se questionando e olhando no fundo das coisas...

Estamos convivendo com o pluralismo da moralidade. O grande problema é como nos movemos nesse meio.

  1. É necessário ter algumas consciências para viver a vida:
a.    A vida é passageira, mas precisa ser vivida um dia de cada vez, não se pode adiantar as etapas, há um tempo determinado para tudo, inclusive biologicamente;
b.    Podemos fazer coisas em segundos que nos arrependeremos para o resto de nossas vidas. Uma noite, um dia, um encontro, um sim que deveria ter sido um não, pode significar anos de sofrimento, traumas, marcas e cicatrizes;
c.   Hormônio não tem religião. Não importa se é pentecostal, tradicional, católico, muçulmano, etc. testosterona e progesterona são opostos que se atraem. Não teste os seus limites, ou como se diz, não dance na beira do abismo;
d.    A Bíblia diz: “sujeitai-vos a Deus, resisti ao Diabo e ele fugirá de vós”. Mas como me ensinou um velho pastor, o Diabo foge, mas não procure resistir a mulher, fuja dela, ou no caso de você moça, fuja dele. Não tente resistir, fuja!!
e.    Lembre-se rapaz, quando você estiver com a sua namorada, se você tiver uma irmã, o que você não gostaria que fizessem com ela, ou com a sua filha quando você tiver a sua. Lembre-se moça, isso também vale para você;
f.     Mulheres que atraem o homem somente pela beleza, ou pela exposição do corpo, se sentirão inseguras quando a beleza faltar. Homens que estão com você por causa do tamanho da sua saia, ou das partes do seu corpo, fatalmente se sentirão atraídos por outras quando você não lhe satisfizer mais. Além do que, geralmente a roupa que usamos passa alguma mensagem...
g.    Pureza sexual não é caretice, é sabedoria. É saber escolher, é não viver por instinto como animais irracionais, mas por raciocínio e sentimento; isso tem haver com a ética reflexiva, que gera a prática moral.
h.    Qual o limite do tempo de namoro? O tempo suficiente para você decidir se é essa pessoa que você quer ter ao seu lado todos os dias da sua vida;
i.   Carinho é diferente de carícia. Defraudar alguém é despertar desejos que você não poderá suprir;
j.   Quando a carícia substitui o carinho, o afeto, torna-se algo animal, instintivo. Isso dura pouco e vicia, pois libera alto grau de dopamina no cérebro causando uma sensação de bem-estar, mas que quando passa, gera frustração e leva o indivíduo a querer ir sempre mais além;
k. Não posso dizer que isso é científico, mas Faculdades teológicas Americanas, entrevistaram um número grande de pessoas e compararam respostas de quem teve parceiros variados antes do casamento (mesmo sendo crentes) e os que se mantiveram castos, o resultado é que pessoas com um maior número de parceiros tendiam a ter mais dificuldade em manterem se fiéis ao cônjuge, além de lembranças do passado mal curadas, traumas, mágoas que traziam junto para a relação.

  1. Agora em uma dimensão mais espiritual – SOMOS TEMPLO, HABITAÇÃO DE DEUS / A IMAGEM DE DEUS ESTÁ EM NÓS / O OUTRO TAMBÉM É IMAGEM DE DEUS
a.       Se tudo o que eu disse não fez significado para você, entenda que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, igrejas, casas, catedrais... A Divindade habita em nós, mesmo nós sendo meros humanos mortais...
b.    Deus escolheu salvar-nos. “A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo vos reconciliou, no corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” (Cl 1.21-22). “E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircucisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz.” (Cl 2.13-14) Aqueles que por graça creram em Cristo como o Filho de Deus, “O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor; Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados;” (Cl 1.13-14).

c. Ele Habita em nós:

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós”? 1 Co3.16
“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos”? 1 Co 6.19
“O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.” Jo 14.17

    1. Existe um caminho de volta...
Deus é Pai, pai não abandona filho. Pai que abandona filho não merece o título de pai. É possível desenvolver uma dieta espiritual; encher a mente de coisas de Deus, esvaziar de coisas animais, e enche-la de coisas espirituais, que são eternas, salvam a sua alma; curam as suas feridas, lhe oferecem novas possibilidades...

Relacionamentos podem ter te machucado. Você pode ter sido mal tratada, incompreendida, assediada, pode ter doido. A consciência não lhe deixa em paz. O diabo aproveita e acusa...
Deus tem cura para a sua alma. Ele tem um caminho de volta, ele tem balsamo para as suas feridas, roupas novas para você, calçados para o seus pés, anel para o seu dedo, uma festa lhe aguardando... Aceite o convite da graça: vinde a mim todos vós...


[1] WISE, Werner. Ética Fundamental: critérios para crer e agir. São bento do Sul, SC: Editora União Cristã, 2008. p, 23
[2] Idem.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Às vezes esquecidos...



Você já vivenciou alguma situação, realizou algum trabalho ou tarefa que passou despercebido, ninguém notou? Como isso é terrível! Você dá um duro danado e ninguém valoriza, e às vezes nem sequer ouve um: “muito obrigado”. Como sugestão de leitura feita por Reginaldo Pereira de Morais (RTM), li a pequena história do rei Jotão que acredito que ilustra um pouco esse sentimento.

Preciso confessar que quado reli o texto da história do rei Jotão em 2 Crônicas 27.1-9, o que me veio a mente foi: “só isso”? Jotão reinou por dezesseis anos, fez tantas contribuições positivas, mas o cronista utilizou apenas nove versículos para falar sobre um bom rei. No primeiro olhar parecia injusto, afinal outros reis inferiores (e não foram poucos) tiveram bem mais linhas dedicadas as suas histórias de vidas do que Jotão.

Contudo, deixando esses pensamentos humanos de lado, e olhando novamente para o texto, podem-se descobrir algumas pérolas, que não poderiam estar (e não estão) nas histórias de reis como, por exemplo, Manassés, Roboão, Acabe, entre outros, que destacam a grandeza espiritual de Jotão, especialmente os versículos dois e seis. Lendo com a perspectiva das pérolas colocadas neste texto pelo cronista real, pode-se fazer um paralelo com nossa vida hoje. Há situações ou momentos dos quais, embora tenhamos feitos muitas coisas boas, a maioria de nós não será lembrado ou levado em consideração. Todavia, ao invés de ficarmos revoltados (como alguns ficam), ou desanimados, devemos continuar a fazer o que deve ser feito. Mesmo que os detalhes das nossas ações não apareçam, é preciso cultivar uma vida de valor. Devemos dirigir nossos passos em conformidade com a vontade do Senhor. E quando conseguirmos esse padrão, será maravilhoso saber que alguém poderá resumir a nossa história com aquela frase: “fez o que era reto aos olhos do Senhor”.

Entendo que isso é bonito na teoria e complicado na prática. Vivemos em um mundo que bom caráter não ganha um “óscar”, onde o mundo é “dos mais fortes”, como o título de um filme premiado por hollywood “onde os fracos não tem vez”. Estamos em uma época onde há um número de pessoas (e às vezes tenho a impressão que é crescente) que sempre acham que nossas ações de hoje são meros investimentos para o amanhã, não acreditam mais em sentimentos altruístas. Assim como os irmãos de Davi que não acreditavam que ele estava no acampamento de batalha apenas para lhes levar o almoço, embora nos planos de Deus havia um gigante a ser derrotado.

Mas se porventura as pessoas não souberem dar o devido valor aos seus feitos, não se preocupe. Melhor ainda será ouvir as maravilhosas palavras de Jesus: “Venham benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” (Mt 25.34). Sendo assim, não procure e nem se preocupe com a honra dos homens, ela é passageira. Mas faça o seu melhor servindo ao Senhor, pois a honra que Deus concede dura para sempre. Pois ele, somente ele, é justo o suficiente para lembrar-se e recompensá-lo ao seu tempo. Tenha certeza: o tempo de Deus sempre chega! Como se diz, os bons frutos crescem em silencio.

Deus não é injusto; ele não se esquecerá do trabalho de vocês e do amor que demonstraram por ele, pois ajudaram os santos e continuam a ajudá-los.
Hebreus 6.10

sábado, 4 de fevereiro de 2012

AS OBRAS DO SENHOR




Ultimamente tenho lido alguns livros do Pr. Eugene Peterson que tem me inspirado teologicamente sobre a questão da oração/espiritualidade. Baseado nisso, nessa semana que falar algo sobre o Salmo 46.

Dois mandamentos nos direcionam do mundo da mente pequena da auto-ajuda ao imenso mundo da ajuda de Deus. Primeiro, “venham, contemplem as obras do Senhor”. Deem uma olhada longa e detalhada naquilo que Deus está fazendo. Isso requer atenção, paciência e concentração energética. Às vezes, parece que todas as outras coisas são mais barulhentas que Deus. As manchetes e frases em neon e os amplificadores de som do mundo anunciam as obras humanas. Mas, e as obras de Deus? Para muitos elas são pouco conhecidas, mas também são inevitáveis se simplesmente as olharmos. Elas estão em toda a parte. Elas são maravilhosas. Deus, no entanto, não tem agência de relações públicas. Ele não monta nenhuma campanha publicitaria para obter nossa atenção. Ele simplesmente nos convida a olhar. Neste convite, o caminho da  oração é uma forma esplendida de olhar para as obras do Senhor.

Por exemplo, posso dizer que Deus está engajado no desarmamento mundial. Todas as tentativas pelas quais homens e mulheres tentam impor à força suas vontades sobre seus semelhantes e inimigos são jogadas no lixo. A violência não funciona, nunca funcionou. Nunca funcionará. Armas não são funcionais.
A história da violência é uma história de fracassos. Nunca houve uma guerra vencida. Nunca houve uma batalha vitoriosa. O usa da força destrói toda realidade que é exercida em seu favor, quer seja honra, verdade ou justiça. Vivendo no tipo de mundo em que vivemos e sendo os pecadores que somos, às vezes não conseguimos evitar a violência. No entanto, mesmo quando ela é inevitável, não é correta. Deus não tem parte nela.

Um olhar firme e constante sobre as obras de Deus enxerga que a nossa produção tola e frenética de armas (quer elas sejam pessoais, quer nacionais, psicológicas ou materiais) está sujeitando ao desarmamento sistemático e determinado. A ação violenta é a antítese da ação criativa. Quando não temos mais vontade ou paciência de sermos criativos, tentamos expressar nossa vontade por meio da coerção. Sendo assim, sou levado a pensar que a preguiça e a imaturidade respondem por grande parte da violência mundial. Por mais predominante que a violência seja, no entanto, a pessoa em oração enxerga que ela não é a maneira como a maior parte do mundo, pelo menos não o mundo da ação de Deus, trabalha. São necessárias, no entanto, energia e maturidade para enxerga-la e sustentar essa visão.

O Salmo 46 leva-nos a outro mandamento: “aquietem-se, e saibam que eu sou Deus”. Isso é muito interessante. Parem de correr pelas ruas e percebam que há mais na vida do que as suas “correrias” permitem que vocês vejam. A inquietação nos torna incapazes de ter intimidade, de possuirmos relacionamentos profundos. Quem está disposto a manter uma conversa, da mais simples que seja, com uma pessoa que não para quieta para ouvir? Com Deus é da mesma forma. Se Deus é o centro vivo da redenção, é importantíssimo estarmos em contato com essa vontade pessoal e respondermos a ela. Deus possui uma vontade para esse mundo e precisamos estar sintonizados com ela, devemos persistir até descobri-la, até encontrar o nosso lugar nessa vontade soberana. Mas só descobriremos, se nos aquietarmos...

terça-feira, 31 de janeiro de 2012



Eugene Peterson escreveu que a “adoração não satisfaz a nossa fome por Deus – ela estimula o nosso apetite. Nossa necessidade de Deus é atendida por intermédio do engajamento na adoração – ela é profunda. Transborda a hora e permeia a semana. A necessidade é expressa em um desejo de paz e segurança. Nossas necessidades cotidianas são mudadas pelo ato da adoração. Não estamos mais vivendo da mão à boca, lutando ambiciosamente na corrida humana rumo ao topo para fazer o melhor que pudermos a partir de uma existência inferior. Nossas necessidades básicas repentinamente se tornam merecedoras da dignidade das criaturas feitas à imagem de Deus: paz e segurança”.

Ao analisarmos o texto bíblico, encontramos palavras com significadas maravilhosos. Entre essas palavras pode-se citar Shalom, paz. Não é possível defini-la apenas olhando o dicionário bíblico, assim como não se pode identificar uma pessoa apenas olhando o número do seu RG. Shalom reúne todos os aspectos da integridade que resultam da realização da vontade de Deus em nós. Ela é a obra de Deus que, quando completa, libera rios de águas vivas em nós e por nós e pulsa com vida eterna. Todas as vezes que Jesus curou, perdoou ou chamou alguém, ele nos deu uma demonstração de paz, shalom.

Uma outra palavra é shalvah, que significa segurança. Ela não tem nenhuma ligação com política de segurança, grandes contas bancárias ou armamentos. Sua raiz significa tempo livre – a postura de alguém que sabe que tudo está bem porque Deus está sobre nós e por nós em Jesus Cristo. Ela é o descanso da pessoa que sabe que todos os momentos de nossa existência estão à disposição de Deus, sob a misericórdia divina.
A adoração inicia uma participação ampla e diária na paz e segurança, de modo que podemos compartilhar em nosso cotidiano aquilo que Deus inicia e continua em jesus Cristo.

Alegrei-me com os que me disseram: "Vamos à casa do Senhor! "
Nossos pés já se encontram dentro de suas portas, ó Jerusalém! 
Salmos 122.1-2

domingo, 29 de janeiro de 2012

A vida que vivemos...


Não começamos a vida sozinhos. Não terminamos sozinhos. A vida, especialmente quando experimentamos pela fé o ato recíproco e complexo da criação e da salvação, não é formada a partir de nossos conhecimentos culturais ou de nossa genética. Ela não é martelada para unir tábuas e pregos de nossos pensamentos e sonhos, nossos sentimentos e fantasias. Não somos autossuficientes. Entramos em um mundo criado por Deus, que já possui uma história rica que já está repleta de participantes comprometidos – um mundo de animais e de montanhas, de política e de religião; um mundo onde pessoas constroem casas e criam filho, onde vulcões expelem lavas e rios desembocam no mar; um mundo no qual, por mais que observemos, enxerguemos e estudemos atentamente, tem coisas surpreendentes acontecendo o tempo todo. Sempre nos surpreendemos porque estamos em algo que está além do nosso controle, algo que está acima de nossas cabeças. Algo criado por Quem está acima de nossa compreensão.

Então, nas palavras de Eugene Peterson, “é na oração nos realizamos e fazemos a nossa parte nesse complexo envolvimento com absolutamente tudo o que existe, não importa o quão distante ele pareça a nós ou quão indiferente sejamos a ele. Esta oração não é um trabalho secundário emocional ou estético ao qual nos entregamos depois que o nosso trabalho verdadeiro foi realizado; antes, ela é o tecido conector de nossa existência dispersa.” O mundo da criação interpenetra o mundo da redenção e o mundo da redenção interpenetra o mundo da criação. Os céus extravagantemente orquestrados e a terra exuberante formada não são o pano de fundo para promover um pouco de beleza sobre o Ser de Deus, antes, eles são a grande beleza na qual encontramos nosso lar, espaço no qual vivemos a cruz de Cristo expansivamente, de coração aberto em louvor.

Nesse espaço de vida, no tempo que Deus reservou para nós dentro da sua extravagante criação que é interpenetrada pela salvação, vivemos o paradoxo da liberdade. Somos livres para escolher, mas obrigados a fazer a escolha. Façamos as escolhas certas, cada um de nós é responsável por suas escolhas. Nesse processo de viver a liberdade e fazer escolhas, a oração é uma ferramenta indispensável para ver além.

Estremeça na presença do Soberano, ó terra, na presença do Deus de Jacó!
Ele fez da rocha um açude, do rochedo uma fonte. 
Salmos 114.7-8

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Profetas ou Marqueteiros?


Pensando sobre algumas práticas, discursos e mensagens de alguns líderes religiosos, descobri pouco do evangelho de Jesus, encontrei mensagens que motivam as pessoas a serem mais “estrelas” do que santos, a verem a Igreja, o evangelho (seria isso mesmo evangelho de Jesus?) como mero shows de entretenimento. Os shows? Os shows não questionam nada, nem promovem nenhuma mudança real na igreja. E o evangelho em tudo isso? E a evangelização? O evangelho é outra coisa. Porém, parece que já não é mais prioridade. A prioridade é a renovação do sentimento religioso, a redescoberta do prestígio sobrenatural do líder e do prestígio social da igreja, como já foi defendido por um famoso teólogo de nosso tempo.

Em muitos aspectos o evangelho entra em conflito, ou até mesmo em contradição com essa realidade que, para muitos, vai se tornando natural. Muitas das lideranças cristãs, no afã de verem as massas lhes seguindo acabam por adaptar a mensagem às demandas desse “mercado religioso”, com isso anunciam o que as pessoas querem ouvir. Nesse caso ocorre uma subordinação da Missão da Igreja à demanda dos consumidores religiosos.

Essa subordinação pode ser entendida como a vitória da lógica do marketing sobre a lógica religiosa ou profética. Na lógica do markenting empresa (ou igreja) procura, em primeiro lugar saber quais são os desejos dos consumidores e a partir disso elabora os seus produtos (bens físicos, simbólicos ou discursos), para atender esses desejos. Enquanto que na lógica profética procura-se conhecer primeiro a vontade de Deus, ou a verdade a ser alcançada através de uma iluminação e depois se anuncia essa verdade mesmo que ela entre em conflito como desejo da maioria da população. Os profetas sempre denunciam o que há de errado na sociedade, nas instituições religiosas e na vida das pessoas e anunciam a esperança de um novo porvir, de uma alternativa possível. Talvez por isso, que, via de regra, os profetas aos olhos humanos “sempre se deram mal”. Elias foi ameaçado de morte, assim como Eliseu, Jeremias foi preso, Daniel traído... a lista seria longa se fossemos tratar de todos, inclusive os discípulos que sofreram martírio, os cristãos primitivos da igreja, etc.

A mensagem do evangelho sempre andou na contra-mão do sistema. Nunca agradou a maioria, sempre questionou, por isso éramos (somos?) chamados de protestantes. Profetas protestam contra o pecado, corrupção, exploração, abuso do nome de Deus. Denunciam o pecado de uma sociedade consumista que quer um Deus apenas para atender as suas necessidades temporais. Jesus pode atender as necessidades temporais (não se nega isso), contudo, está mais interessado em salvar a alma, pois ela não deixa de existir, não pode ser destruída.

Senhor, precisamos urgentemente de profetas neste século XXI!! Porém, quando eles anunciarem as suas Palavras, não nos deixe apedrejá-los, nem trancafiá-los, nem expulsá-los. Que nossos corações sejam compungidos no temor ao único Deus, soberano, salvador e galardoador daqueles que O buscam.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Espiritualidade: o problema da definição

Citando Droogers[1], “espiritualidade como conceito não existe na ciência da religião. Ela não é uma categoria que os cientistas da religião usam nas suas descrições e nos seus livros de introdução. E a razão parece estar clara: espiritualidade é um conceito cristão cuja definição quase sempre e termos teológicos, incluindo exatamente as pressuposições sobre verdades e objetivos que as ciências da religião querem evitar em suas descrições.”
Tratando-se de espiritualidade como um conceito cristão, três autores (teólogos) precisam ser citados para que a discussão seja ampliada: James Houston[2], Eugene Peterson[3], Henry Nowen[4] e o brasileiro Riccardo Barbosa.[5] Baseado nas propostas de Droogers, e influenciado por estes pensadores, entendemos que a espiritualidade é o tema da agenda religiosa neste período em que estamos vivendo. Em todos os encontros, debates e discussões ela está presente. Não apenas no universo teológico, mas cultural, empresarial e econômico. Todos conversam sobre o assunto, falam de suas experiências, descrevem seu momento espiritual. Empresas preocupam-se com o estado espiritual dos seus executivos, cursos e palestras são oferecidos, livros e revistas especializados no assunto surgem a cada dia. Como diz o Pr. Eugene Peterson, “quando encontramos um grupo de homens conversando sobre colesterol é porque estão preocupados com sua saúde, alguma coisa não vai bem, doutra forma, não conversariam sobre o assunto. Quando vemos e ouvimos muita gente conversando e lendo sobre espiritualidade é um mau sinal, a luz vermelha está acesa, é um tema que preocupa, que não está de todo resolvido, há inquietações”.
            Antes de mais nada é bom lembrar, citando Pr. Ricardo Barbosa, em seu texto “Espiritualidade e Espiritualidades” que “quando falamos de espiritualidade não estamos nos referindo apenas à obra do Espírito Santo, mas também aos movimentos do espírito humano na busca por identidade e significado. Neste sentido podemos falar de espiritualidades. Não se trata de uma realidade, mas de várias, com expressões e formas diferentes”.
            É possível que, nunca vivemos na história um período tão marcado pela busca do sagrado e por uma abertura espiritual como vivemos hoje. Isto se vê mais acentuadamente na cultura ocidental que por pelo menos quatro séculos sofreu uma espécie de “repressão por uma ditadura racional”. O racionalismo determinou o sentido e o significado da realidade humana e, qualquer expressão que não pudesse ser definida pela lógica da ciência, era considerada falsa. “O que vemos hoje não é outra coisa senão uma revolução do espírito humano protestando contra essa repressão sofrida”.
            A segunda metade deste século foi marcada por várias rebeliões e protestos. O movimento “hippie” dos anos 60 e 70 que protestou contra a repressão moral, a guerra do Vietnã, consumismo, levantando a bandeira do amor livre, do uso das drogas, da quebra dos preconceitos e tabus. O movimento feminista que lutou pelos direitos das mulheres, contra uma sociedade machista que não apenas oprimia as mulheres, mas impunha um modelo social masculino. No campo político tivemos a “perestroika” e a “glasnost”, a queda do muro de Berlim, o colapso das estruturas políticas totalitárias e o surgimento do neo-liberalismo com a promessa de uma economia globalizada. O surgimento dos livros de auto-ajuda e a descoberta da inteligência emocional abriu um novo espaço nos centros que até pouco tempo atrás eram dominados pelos tecnocratas. No mundo evangélico tivemos a renovação carismática dos anos 60, o movimento da música “gospel” no final dos anos 80 e 90, e o surgimento das igrejas neo-pentecostais ou pós pentecostais com as promessas de saúde, riqueza e felicidade instantâneas.
            Tudo isto são manifestações de protesto do espírito humano, e o protesto tinha um endereço: a opressão do totalitarismo racional. A cultura moderna gerou um espírito moderno que considerava como verdadeiro somente aquilo que podia ser comprovado cientificamente e compreendido racionalmente. O protesto veio nos dizer que existe uma verdade mais profunda do que a leitura superficial do racionalismo impessoal. Era isto que Pascal protestou quando disse que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.


[1] DROOGERS, Espiritualidade: o problema da definição. In: Estudos Teológicos, n. 23, Vol 2, São Leopoldo, p. 113, 1983.
[2] Escreveu mais de 40 livros, professor por mais de 40 anos e pastor. Entre seus livros podemos citar: HOUSTON, James. Meu legado espiritual. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008.
[3] Escreveu mais de 30 livros , professor por mais de 30 anos e pastor. Entre seus livros: PETERSON, Eugene. Alinguagem de Deus. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2009.
[4] Teólogo, padre, professor de Harvard e Yale, abriu mão de sua vida acadêmica para ser líder espiritual de uma comunidade de doentes mentais. Entre seus livros: NOWEN, Henry. A volta do filho pródigo. São Paulo: Paulinas, 2008.
[5] Teólogo, pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto (Brasília), articulista, escritor. Entre seus livros: BARBOSA, Ricardo. O caminho do Coração. 6. ed. Curitiba: Editora Encontrão, 2011