sexta-feira, 24 de maio de 2013

Guardiões da Lei (estatutos, regimentos...)





Uma das passagens mais conhecidas do escritor russo Dostoievski é a historia do Grande Inquisidor, relatada no livro "Os irmãos Karamazov", um clássico da literatura mundial. O cenário é Sevilha, nos tempos da Inquisição. Ainda na véspera, uma centena de hereges havia sido queimada, para maior glória de Deus, num soberbo auto de fé. Eis que agora… quem aparece caminhando na mesma praça? Jesus! Afinal de contas estava escrito que um dia ele voltaria. Na análise crítica de Roberto Pompeu de Toledo[1], “parece que Jesus resolveu voltar bem no momento da história em que os que se fizeram de donos de sua mensagem adotaram a política de silenciar pelas chamas os insubmissos e desobedientes, os desviantes ou os considerados como tais”.

O Grande Inquisidor, um Cardeal já bastante idoso, percebe que Jesus está andando pela cidade, pois as multidões o seguem. O Cardeal não gosta desta aparição e o lança na prisão. Ali eles se encontram e travam um diálogo. O Inquisidor tem uma acusação a fazer: rejeitando as três tentações, Jesus perdeu o direito aos três grandes poderes que estavam a sua disposição: “milagre, mistério e autoridade”. A ideia era: Será que Jesus não percebeu que era isso que o povo queria? Disse o Cardeal: “Em vez de tomar posse da liberdade dos homens, aumentaste-as e queimaste o reino espiritual da humanidade com seus sofrimentos eternos. Desejaste o amor livre do homem, que ele te seguisse livremente, atraído e cativo por ti.”

Quando Jesus resiste às tentações, segundo o pensamento do Cardeal, Jesus tornou-se difícil demais de ser aceito. Sujeitou sua vantagem maior: o poder de impor a fé. Felizmente, disse o Cardeal, a Igreja reconheceu o erro e o corrigiu, e tem se apoiado no milagre, no mistério e na autoridade desde então. Por esse motivo, o Inquisidor deveria executar Jesus mais uma vez, para que ele não impedisse a obra da Igreja.

Da mesma forma, a tentação do deserto revela uma profunda diferença entre o poder de Deus e o poder de Satanás. Satanás tem só poder de coagir, de estontear, de forçar a obediência, de destruir. Os seres humanos aprenderam bem beber desse poder. O poder de Satanás é coercivo e externo. O poder de Deus é diferente, é interno e não coercivo. “Não se pode escravizar o homem por meio do milagre, e a fé necessária é gratuita, não fundamentada em milagre”, disse ao Cardeal.

O que parece claro nessa fábula é que o velho Inquisidor que aparece na cela, é um homem muito ciente de seus deveres e de sua autoridade e por isso lhe comunica que, no dia seguinte, será queimado. Não dá ao condenado nem o direito de fala. Ordena-lhe: “Não digas nada, cala-te. Que poderias tu dizer? Não tens o direito de acrescentar uma só palavra ao que dissestes outrora”.

Nessa fábula, Dostoievski tinha em mente Jesus e os descaminhos de sua herança nas mãos dos que dela se apropriaram. Dá para fazer uma moral expandida da fábula com todos os descaminhos que se fazem mundo a fora em nome de Deus...

Uma delas: Em uma sala, em um imponente prédio em uma grande capital... um grupo de pessoas “ciente de seus poderes e de sua autoridade" comunicou ao Pastor da Primeira Igreja Assembleia de Deus fundada no Brasil que ele não faz mais parte de seu quadro de associados! Não possui uma postura digna de membro da Geral. Fogueira... Somos bons demais para que pessoas como você permaneça no meio de nós... Guardiões... podemos apedrejar? O estatuto diz... Fogueira!!!! Surgirá uma série de Guardiões para citar textos isolados, como: "saíram de nós porque não eram nossos", etc. Quando na verdade a base de tudo é o medo que surge quando alguém questiona, isso faz com que se sintam ameaçados. Uma sombra começa a surgir... isso não é bom...

Pessoas como o "velho Cardeal" da fábula, se esquecem que ideais não morrem nas fogueiras das vaidades... sonhos não se calam... A marcha da história não perdoa os irrelevantes.

Foi assim com Pinheiro Machado na história do Brasil. Influente, articulador segundo os seus próprios interesses, mas que na sequência da história foi esquecido.

Agora, se eu perguntar quem foi Rui Barbosa... No mínimo a maioria dirá que foi uma pessoa de boa influência no Brasil.

Como bem disse o Senador Pedro Simon: “O Rui Barbosa é o nosso grande patrono no Senado, mas como político foi um homem de derrotas. Perdeu duas vezes a eleição para presidente da República e não tinha influência no governo. Quem mandava e elegia presidentes era o (José Gomes) Pinheiro Machado, de quem hoje ninguém fala.

Precisamos ter a capacidade de discordar. De olhar para o outro e dizer, possuo uma proposta diferente, entendo que esse caminho é o melhor. A verdade resiste ao debate. Deixe a alma e a consciência das pessoas fazerem suas escolhas (os que são cheios do Espírito Santo farão suas escolhas pelo Espírito). Mas... papel de Inquisidor, deixe para as fábulas de Dostoievski.

Senhores, dotados de autoridade espiritual, consultem menos seus assessores jurídicos e mais o Espírito Santo. Ele entende mais de Corpo de Cristo do que seus advogados.




[1] Veja 8/5/2013